Os desafios da mobilidade urbana no Brasil
Enviada em 28/09/2019
“Agonizou no meio do passeio público, morreu na contramão, atrapalhou o tráfego”. Retrato autêntico dos grandes centros urbanos brasileiros, a canção “Construção, de Chico Buarque, descreve a morte trágica de um trabalhador no espaço público. Assim como na modinha, a ocorrência de imprevistos no tráfego resulta na intensificação do engarrafamento. Nesse sentido, é evidente que o crescimento desordenado da indústria automotiva brasileira resultou na desestruturação da mobilidade urbana, seja pela debilidade do transporte transporte público, seja pelo aumento dos veículos particulares, sendo esse promovido pela extrema valorização da “cultura do carro”.
Em primeiro lugar, é preciso analisar o problema sob um viés histórico. Embora os ônibus urbanos e metropolitanos sejam a modalidade de condução predominante no Brasil, a capacidade de atendimento ainda é insuficiente, visto que a superlotação é frequente na maioria dos municípios. Em uma pesquisa realizada pela Ideia Big Data, 57% dos entrevistados avaliaram o transporte público brasileiro como “ruim” ou “péssimo”. Além da alta concentração, o preço das passagens e a precária condição dos veículos são alguns dos fatores que determinaram a baixa avaliação do sistema. Dessa forma, percebe-se que a falta de investimento estatal culmina na má qualidade do serviço e, consequentemente, impulsiona a preferência por automóveis particulares.
Com efeito, o processo intenso de urbanização se vinculou ao aumento dos veículos motorizados, haja vista a priorização do investimento na indústria automobilística. Nessa perspectiva, ressalta-se que a criação de políticas de redução da taxa na compra de carros e a construção de rodovias foram decisivas para a expansão do uso de viaturas privadas. Outrossim, a influência da publicidade sobre os modos de consumo acentua a conjuntura exposta, uma vez que a promoção do carro como símbolo de ascensão social se concebe como uma lógica consumista na medida em que restringe a qualidade e o conforto ao transporte individual e, assim, promove o distanciamento do serviço coletivo.
Portanto, é mister a adoção de providências para amenizar o quadro. Na busca pelo decrescimento da superlotação e consequente otimização do transporte público, cabe ao Estado a ampliação das frotas de ônibus no território brasileiro, por meio de maiores investimentos financeiros e fiscalização do funcionamento, com garantia do pleno bem-estar da população e qualidade dos serviços. Ademais, é necessário que a mídia fomente o interesse da população pelo tema por meio campanhas de conscientização com depoimentos e imagens que evidenciem a importância de uma reestruturação dos sistemas de transporte no Brasil. Destarte, espera-se, reduzir a busca pelos veículos individuais e facilitar a locomoção urbana a fim de que o cenário entoado por Chico Buarque se limite à ideação.