Os desafios da mobilidade urbana no Brasil

Enviada em 12/09/2019

Friedrich Nietzsche, importante filósofo prussiano, em sua obra “A Grande Tragédia”, resgata dois Deuses gregos, Apólo e Dionísio, relacionando-os ao caráter humano. O primeiro representa a ordem e a razão; o outro, por sua vez, demonstra o caos, os instintos e os desejos. Frustra constatar que, no Brasil, há um desequilíbrio na índole humana: o espírito dionisíco - caótico - predomina sobre o apolíneo na medida em que a mobilidade urbana é ineficaz e insegura, fruto da inação governamental e, também, do egoísmo pós-moderno.

Em verdade, é imperioso destacar o individualismo exacerbado como contratempo ao funcionamento da mobilidade urbana brasileira. Isso decorre, segundo o sociólogo francês, Gilles Lipovetsky, no livro “A era do Vazio”, da concretização, pós século XXI, da mercantilização do estilo de vida, isto é, a priorização do hedonismo em relação ao fator apolíneo humano. Evidenciou-se isso, por exemplo, no governo Juscelino Kubitscheck, quando, à época, a aquisição de um carro era imprescindível à manutenção de um status social elevado perante o resto da população. Com isso, conforme divulgado pelo Departamento Nacional de Trânsito, o número de carros individuais mais que dobrou nos últimos dez anos, causando congestionamentos e interrupção da fluidez locomotiva.

Somado-se a isso, é relevante enfatizar que a negligência das autoridades é um desafio ao escorreito desempenho da mobilidade urbano-social. Isso não aconteceria, na perspectiva do filósofo alemão, Jürgen Habermas, se a legitimidade democrática fosse atingida, apenas, por meio de deliberação, isto é, da ampla discussão do conjunto das partes que compõe a sociedade, de modo que o processo de decisão seja permeado pelo discurso, que antecede a decisão. Em decorrência dessa omissão, ocorre, a título de exemplo, o financiamento de carros às autoridades - deputados, senadores e vereadores - indo de encontro ao requerido pela população, dificultando, sobremaneira, a situação, já caótica, do tráfego urbano. Ora, se as autoridades pouco se preocupam com a atual situação da mobilidade urbana, o indivíduo acua-se, sem perspectiva de melhoras.

Infere-se, portanto, que a mobilidade urbana carece de medidas para assegurar sua plena funcionalidade. Em razão disso, o governo Federal, na figura do Departamento Nacional de Trânsito, deve incentivar o transporte público em detrimento do privado, por meio da diminuição do preço desse serviço, além de melhorar a qualidade de forma pragmática - aumentando o número de ônibus circulantes -, a fim de que o indivíduo tenha interesse em utilizar tal sistema, uma vez que o transporte público melhora a fluidez locomotiva, diminuindo a área utilizada para transportar o mesmo número de pessoas, cessando congestionamentos e favorecendo o espírito apolíneo apregoado por Nietzsche.