Os desafios da mobilidade urbana no Brasil
Enviada em 05/09/2019
“Stop. A vida parou ou foi o automóvel?”; disse o poeta Drummond no início do século XX. Com isso, ele se contrapôs à sociedade da época empolgada com as promessas de progresso e aceleração trazidas pelo advento do automóvel. Paralelamente a isso, urge na pós-modernidade uma reflexão histórico-social a respeito dos impactos negativos que uma vida dependente dos carros gerou na livre locomoção dos indivíduos em seu meio de interação sócio-cultural. Visto que, o antigo sinônimo de movimento virou a âncora da vida urbana.
Nesse sentido, ao longo das décadas, houve uma priorização das políticas governamentais em torno do modal rodoviarista, a exemplo do incentivo massivo à entrada, no país, de indústrias automobilísticas pelo presidente ‘JK’ nos anos 50. Dessa forma, essa perspectiva nacional desenvolvimentista perdura até os dias atuais, pois apesar do Brasil ser um país de extensão continental e abrigar mais de 200 milhões de habitantes, ainda é prioridade meios de locomoção individualistas e privados. Não obstante, a famosa música sertaneja “agora eu fiquei doce […] estou tirando onda com Camaro amarelo” reflete o símbolo de sucesso que um carro possui na sociedade. Embora, a Constituição cidadã de 1988 tenha garantido o transporte como um direito social, o cotidiano escancara justamente o contrário. Posto que, os indivíduos estão reféns de automóveis para se deslocar nos espaços urbanos, de maneira que passam horas em engarrafamentos exaustivos, enclausurados com vidros fechados e expostos à poluição sonora de buzinas. Outrossim, àqueles que possuem condições financeiras precárias ficam sujeitos à transportes públicos sucateados, de péssima manutenção e insuficientes para a demanda.
Torna-se necessário, portanto, o investimento em políticas de Estado que reafirmem o direito de ir e vir assegurado pela Carta Magna de 88. Para isso, cabe ao Ministério do Desenvolvimento Regional destinar parte do seu orçamento para pesquisas, em parcerias com Universidades Federais, sobre como mudar, gradualmente, do rodoviarismo para modais intercalados como a ampliação de linhas de metrô e incrementar os ônibus de maneira mais tecnológica, segura e confortável, ambos de maneira econômica e ambientalmente viáveis. E, juntamente às secretárias estaduais aumentar, a curto prazo, a disponibilidade do aluguel de bicicletas, mais baratas e acessíveis em pontos distantes dos centros comerciais e ampliar as ciclovias e ciclofaixas. Ademais, cursos análogos ao de habilitação, porém voltados para ensinar os cidadãos a pedalar de forma mais confiante e ciente das leis de trânsito seriam eficientes na conquista de uma cidade mais compacta.