Os desafios da mobilidade urbana no Brasil
Enviada em 30/10/2018
Na obra “A Cidade e a Serra”, Eça de Queirós apresenta uma dicotomia: dividido entre campo e vida metropolitana, o livro ambienta várias críticas do autor acerca do caos urbano instalado. Passados dois séculos desde o clássico, o drama descrito nunca provou-se tão verdadeiro no Brasil: diante de uma crescente população nas cidades, a mobilidades urbana faz-se um grande desafio no cenário atual.
Em primeira análise, é necessário entender a problemática desde suas origens. Assim, é constatado que durante o governo de Juscelino Kubitscheck, o uso de automóveis foi intensamente apoiado, seja pela promoção de indústrias automobilísticas em território nacional ou pela crescente construção de rodovias em detrimento das ferrovias e outros meios de transporte, como o transporte coletivo. Essa herança resultou em um aumento de veículos desproporcional à infraestrutura existente, aspecto refletido atualmente nos grandes congestionamentos de carros, estradas de péssima qualidade, falta de acessibilidade nas vias, entre outros, fatores que afetam diretamente a qualidade de vida e o cotidiano do cidadão.
Consoante aos fatos supracitados, e utilizando-se do conceito de “fetiche de mercadoria”, de Karl Marx, traça-se um paralelo com a visão de status social dos automóveis e os desafios da mobilidade urbana. Assim, vistos não só como meio de locomoção mas também como de ostentação, pela perspectiva do sociólogo, os veículos tomam o espaço de transportes coletivos, também por conta da ineficiência dos mesmos, ou alternativas mais ecológicas como bicicletas e aquaviários, sobrecarregando o sistema rodoviário. Cabe, portanto, desconstruir essa visão luxuosa acerca dos carros, visando uma visão mais holística do cenário metropolitano.
Com base nos argumentos anteriormente expostos, faz-se claro que a mobilidade urbana deve ser repensada e planejada no país. Para tal, são necessárias melhorias no transporte público como também criação de meios de transportes que aproveitem a geografia regional, como metrôs subaquáticos e balsas, por parte do Estado, visando oferecer alternativas de qualidade para a população se locomover, com o fito de aliviar o fluxo nas estradas e vias. Com o mesmo objetivo, é dever da mídia televisiva e das redes sociais, como Instagram e Facebook, na elaboração de campanhas de cunho sustentável e saudável, que conscientizem acerca do uso individual de veículos e da exorbitante quantidade desses nas ruas, visando incentivar o uso de bicicletas, por exemplo, ou a prática de caronas solidárias. Tais medidas tomadas, talvez seja possível afastar-se de uma realidade já criticada por Queirós.