Os desafios da mobilidade urbana no Brasil
Enviada em 19/10/2018
No início do século XX, a vanguarda europeia futurista tinha como um de seus símbolos de exaltação o automóvel, um reflexo positivo da modernidade. Hoje, entretanto, a grande expansão da compra de veículos, com destaque aos particulares, tornou-se motivo de preocupações acerca da saúde da mobilidade urbana em muitos países, principalmente no Brasil. Sob essa perspectiva, é válido abordar o precário planejamento urbano e a ambição por status como grandes agravantes do caótico deslocamento diários dos brasileiros.
Primeiramente, cabe dizer que a matriz de transportes escolhida para o país é essencialmente rodoviarista. Esse processo de priorização em detrimento de outros modais atingiu seu auge no governo de Juscelino (J.K.), o qual implementou seu projeto de integração nacional com base em rodovias. Contudo, essa lógica permaneceu posteriormente, o que se reflete, por exemplo, no investimento tardio e incipiente no modelo metroviário - iniciou-se na década de 1970 e, enquanto a metrópole Nova Iorque possui mais de 410 quilômetros de linhas, São Paulo apresenta cerca de 80. Dessa forma, o deslocamento diário de muitas pessoas fica quase restrito a um modal, culminando em enormes congestionamentos.
Além do planejamento urbano deficitário, outra questão a qual contribui para a situação caótica do trânsito é a falsa necessidade de adquirir um carro. Como alertava Zygmunt Bauman, em tempos de era da informação, a invisibilidade é equivalente à morte. Sob essa essa visão, influenciados por uma mídia a qual, frequentemente, relaciona a posse de um veículo moderno a uma posição de destaque e admiração, muitos indivíduos buscan atingir esse ideal por meio da compra de um automóvel. Desse modo, em uma sociedade cada vez mais carente de afeto, é normal que o número de carros se multiplique.
Fica claro, portanto, que o estado enfermo da mobilidade urbana no Brasil apresenta como dois grandes responsáveis a ineficiência do Estado e o individualismo. A fim de reverter esse quadro, é essencial o investimento conjunto de governos estaduais e municipais na intermodalidade. A ação pode ser implementada, por meio da expansão das linhas de metrô para regiões periféricas aos centros urbanos e disponibilização de bicicletas públicas em áreas adjacentes às estações. Assim, a massa trabalhadora, além do ônibus, terá mais opções para se deslocar diariamente. Ademais, a mesma mídia propagandística que incentiva o consumo pode ajudar na associação da imagem de uma pessoa que recusa o conforto do carro particular em nome do meio ambiente e da fluidez do trânsito a alguém admirável, por meio de propagandas. Com isso, será possível ver, novamente, com bons olhos as exaltações a automóveis feitas pelo futurista Giaccomo Balla.