Os desafios da mobilidade urbana no Brasil
Enviada em 10/10/2018
Charles Pearson - idealizador do pioneiro metrô de Londres - manifestou, na década de 1860, sua preocupação quanto ao transporte de pessoas dentro da cidade, que tenderia a colapsar. Conquanto seja do século XIX, esse pensamento aplica-se à realidade contemporânea, sendo a mobilidade urbana um dos maiores desafios das grandes cidades brasileiras. Dessarte, contribuem para o fenômeno a insuficiente integração dos meios de deslocamento e a cultura de supervalorização do carro.
A priori, é importante ratificar que, com a Revolução Técnico-Científica-Informacional, a concepção de metrópole mudou, passando de centro industrial para um local de diversas atividades, como serviços, produção de conhecimento e mercado, consoante a teoria de Saskia Sassen. Dessa forma, um eficiente sistema de transporte é fulcral para o funcionamento da cidade, atendendo demandas diversificadas da população. Entretanto, vários municípios brasileiros investem em meios de locomoção separadamente, e não de maneira unificada, com um complementando o outro. Esse caso é exemplificado em Brasília, onde os bilhetes de metrô e ônibus do núcleo urbano e da região metropolitana não são vinculados, ocasionando em prejuízo para a comunidade.
Concomitantemente, a idiossincrasia do Brasil, a qual prioriza os automóveis, amplifica esse transtorno. Nesse sentido, o presidente Washington Luís, em 1928, proferiu a frase “governar é abrir estradas”, imbuído de uma ideologia que marcou a política de transportes durante todo o século XX, especialmente no mandato de Juscelino Kubitschek. Assim, cristalizou-se - por meio de propagandas, novelas, filmes e músicas, como “O Calhabeque”, de Roberto Carlos, - a ideia do carro como símbolo de poder e riqueza na cultura. Esse fenômeno é evidenciado nas metrópoles, onde a estrutura urbana é voltada para veículos em detrimento de ônibus, ciclovias e metrô.
Em face do conferenciado, a mobilidade é um grande obstáculo às metrópoles do Brasil, sendo imprescindível aprimorá-la. Para tanto, cabe às secretarias de transporte das regiões metropolitanas, por meio de parcerias intermunicipais, a criação de bilhetes únicos que integrem diferentes meios de transporte em todas as áreas locais, visando atender à população de maneira abrangente. Outrossim, é dever do Ministério das Cidades, mediante repasses e empréstimos financeiros, o incentivo ao investimento em meios de locomoção alternativos ao carro, como metrô, ciclovias e ônibus, objetivando atenuar a pressão voltada para a infraestrutura automobilística e, dessa maneira, confrontar a idiossincrasia do veículo. Por conseguinte, a sociedade brasileira transcenderá aos desafios levantados por Charles Pearson, na capital inglesa.