Os desafios da mobilidade urbana no Brasil

Enviada em 21/06/2018

“Que mundo de bichos!”, exclama Macunaíma, personagem de Mário de Andrade em um dos principais romances modernistas brasileiros, ao deparar-se com a caótica situação do trânsito de São Paulo, que o faz associar os ruídos e os automóveis às onças pardas e boitatás. No entanto, apesar de a obra ter sido produzida há quase um século, o pensamento do “herói sem nenhum caráter” parece dialogar com o cenário atual, visto que, hodiernamente, as estradas do país se assemelham a grandes selvas de automóveis e geram inúmeros problemas sociais, como o gasto excessivo com transportes, e ambientais, como a elevada taxa de poluição.

Nesse contexto, o ano de 1930 foi marcado pela intensa urbanização do Brasil ao longo do Governo Vargas, durante o qual a mecanização do campo e a Consolidação das Leis Trabalhistas na cidade atraíram várias pessoas para a zona urbana no país. Contudo, esse processo, dissociado do crescimento urbano, deu origem ao fenômeno da segregação socioespacial, que levou as classes economicamente baixas a estabelecerem-se em áreas afastadas dos grandes centros, as periferias. Dessa maneira, essa organização espacial ocasiona impactos na mobilidade urbana atualmente, uma vez que, por morar longe de seu ambiente de trabalho, a população periférica precisa utilizar vários modais de transporte público para seu deslocamento, gerando um gasto excessivo com passagens para sua locomoção diária.

Em segunda instância, convém ressaltar que, segundo pesquisas do jornal O Globo, os automóveis são responsáveis por 90% da taxa de poluição atmosférica no país. Nesse viés, pode-se observar uma enorme demanda por alternativas de transporte sustentável, como as bicicletas. Entretanto, a falta de uma política de investimento na adaptação e melhoria das vias voltadas para esse modal de transporte reflete na baixa adesão social aos veículos não poluentes, visto que a existência de ciclovias é rara, e a conservação dessas é precária.

Mediante o exposto, faz-se necessária a adoção de medidas que solucionem o problema vigente. Destarte, cabe ao Governo prezar pelo bem-estar social por meio da redução no preço das passagens dos transportes públicos, de modo a reduzir o gasto financeiro daqueles que necessitam desses veículos para a locomoção; ademais, é função dos governos estaduais investirem na criação e reformas de ciclovias, a fim de incentivar a adoção do transporte sustentável por parte da sociedade. Outrossim, é conveniente que a mídia crie campanhas que divulguem a importância da preservação ambiental, estimulando a redução do contingente de veículos poluidores nas ruas. Quem sabe assim, a população caminhe rume ao modernismo ao garantir a diferenciação entre as selvas e as vias do país.