Os desafios da inclusão de pessoas com autismo no Brasil

Enviada em 09/10/2020

A obra “O Cidadão de Papel”, de Gilberto Dimenstein, defende que os direitos do cidadão brasileiro se restringem tão somente à forma de lei, usufruindo de uma cidadania aparente. Nesse viés, ressalta-se, contemporaneamente, no Brasil, que o Estado falha na inclusão de autistas no ambiente escolar e no mercado de trabalho. Esses imbróglios são reforçados pela falta de preparo de escolas e o preconceito no processo de admissão de empresas.

Em primeiro lugar, é necessário abordar as falhas governamentais. Platão, há dois milênios, idealizou a teoria da cidade justa em que, nela, tudo era perfeito. No entanto, no Estado brasileiro hodierno, a tese do filósofo grego perde espaço quando se observa a falta de políticas de inclusão de pessoas com autismo nas escolas públicas brasileiras. Desta maneira, um dos problemas enfrentados é a falta de orientações aos profissionais da educação. Sabe-se que os alunos autistas possuem necessidades diferentes de outros estudantes. Eles podem, por exemplo, ser mais sensíveis a barulhos, que levam à irritabilidade. Assim, um aluno com tal transtorno e que estuda em uma escola despreparada para recebê-lo, será prejudicado em seu processo educacional. Somando-se a isso a intensa desigualdade social brasileira, pais de alunos que não possuem condições financeiras para colocá-los em colégios preparados, ficam reféns de escolas que prejudicam seus filhos no processo educacional.

Outrossim, destaca-se a dificuldade de autistas em aderirem ao mercado de trabalho. Segundo o sociólogo Erving Goffman, a Teoria do Estigma Social preconiza a existência ações preconceituosas que designam indivíduos como menos qualificados ou desvalorizados. Sendo assim, é evidente que pessoas autistas são alvo de preconceitos ao procurarem emprego. Sabe-se que, de acordo com o nível de autismo, o cidadão enfrenta problemas de socialização. Desta forma, a falta de habilidade social pode ser um problema ao encontrar um emprego, pois esse não é um padrão de comportamento que as empresas públicas e privadas priorizam ao contratar. Diante desse cenário, são importantes as leis que exigem um número mínimo de pessoas com alguma deficiência intelectual nas empresas.

É mister, portanto, que o Estado tome atitudes em prol da inclusão de autistas. Ele deve, por meio do Ministério da Educação, criar programas para a qualificação de profissionais da educação, orientando sobre todas as necessidades e características de pessoas autistas, visando a inclusão no ambiente escolar. Ademais, ele deve, por intermédio do Ministério do Trabalho, ampliar as cotas para pessoas autistas  nas empresas e, além disso, atuar com rigor na fiscalização no cumprimento da lei, para que os autistas exerçam seu direito constitucional ao trabalho. Com essas medidas sendo tomadas, os autistas darão um passo a frente para usufruírem de sua cidadania plena.