Os desafios da inclusão de pessoas com autismo no Brasil
Enviada em 30/08/2020
“4, 3, ignição, 1, decolagem…”. Saturno V alcança a orbita baixa… ultrapassa o cinturão de Van Allen… ultima volta ao redor da Terra completa, iniciando propulsão direcional… desacoplamento da Eagle com o Módulo de Comando… “Um pequeno passo para o homem, um grande passo para a humanidade”. O pouso na Lua foi o mais extraordinário feito da segunda metade do século XX. Contudo, tamanho avanço nos conhecimentos científicos não significou progresso nas questões sociais inclusivas, como o exemplo do autismo. O descaso por parte da política pública e de instituições para com as pessoas com tal espectro continua firme e forte, mesmo perante tamanha evolução tecnico-informacional.
O marco tecnológico alcançado devido ao conflito ideológico entre União Soviética e Estados Unidos da América revolucionou a maneira de se pensar engenharia aeroespacial. Todavia, com tal fato como foco de debates e discussões, inúmeros outros temas importantíssimos são deixados de lado. É incomum conversar sobre o autismo em escolas e tantos outros locais onde se aglomera a população brasileira. Os olhos da sociedade se voltam para o mais resplandecente e novo objeto tecnológico, e não para as questões sociais que precisam ser revistas e postas no ponto focal da lente conhecida como humanidade. Assim, esse transtorno de desenvolvimento, que é observável nas interações do indivíduo com o ambiente em que está inserido e faz-se presente em uma a cada cento e dez pessoas, será motor de mudanças sociais.
Entretanto, mesmo com dois milhões de autistas no Brasil e a falta de conhecimento sendo ordinária, há quem busque acabar de vez com a discriminação e inserir, de maneira concreta e legal, os autistas nos sistemas de ensino básico e superior e no mercado de trabalho do país. Pais de crianças com esse distúrbio penam para matricular seus filhos em escolas, tendo sua negação embasada nos seguintes argumentos: “Não trabalhamos com esse tipo de criança. A escola não pode parar para se ajustar à sua filha. Não há nada que essa escola possa fazer por ela”. Retirada de uma reportagem do jornal O Tempo (MG), essas orações demonstram a dificuldade de acesso de tais crianças aos seus direitos como cidadãs brasileiras.
Contudo, tamanha complexidade traz uma solução relativamente simples à questão abordada nesse texto. O descaso citado é combatível por meio de pressões populares que exijam alterações e adições nas obrigações das instituições de ensino, estabelecendo a obrigatoriedade da aceitação dos autistas, e na base de formação dos professores, procurando levar a questão do autismo às salas de aula. Assim, a ida à Lua será apenas um dos orgulhos de se ser um humano civilizado e “humano”.