Os desafios da inclusão de pessoas com autismo no Brasil
Enviada em 05/07/2020
O livro “This Perfect Day”, do escritor Ira Levin, aborda a história de uma sociedade que se encontra livre de quaisquer conflitos interpessoais, na qual, todas as pessoas usufruem da plena igualdade. Nessa ótica, ao se pensar a respeito desse irônico intento literário, é possível analisar, por meio dos utópicos caracteres atribuídos à vida social, a dimensão da inadmissível exclusão do autista no mercado de trabalho, especialmente, com relação ao preconceito coletivo e com a passividade interventiva do Estado.
É lícito pontuar, a princípio, a predominante aversão acerca dos portadores do Transtorno do Espectro Autista, culminando, em sua marginalização trabalhista. Isso porque, de acordo com a teoria da “Coesão Social”, do sociólogo Émile Durkheim, a sociedade tende a segregar e punir de diferentes formas os destoantes dos padrões impostos, o que contribui para a construção de paradigmas sobre essas pessoas. Como efeito desses paradigmas, observa-se, lamentavelmente, a majoritária invisibilidade de empresas, gestores do setor privado e Sociedade Civil diante desses indivíduos subjugados, deturpando, assim, o ideal constitucional de isonomia, em tese, garantido.
Soma-se à tamanha problemática, a carência de investimentos estatais voltados para a inserção no âmbito laboral. Nessa lógica, em contrapartida ao artigo que equaliza as oportunidades, cerca de 85% dos adultos portadores dessa deficiência, encontram-se desempregados, segundo o IBGE. Por conseguinte, milhares desses citadinos são vulnerabilizados e expostos a um cenário de constante anomia, visto terem sua dignidade lesionada, sendo assim, impossibilitados de acessar bens de necessidade básica, como o trabalho. Tamanho descaso, contraria a tese do exímio filósofo Hegel, a qual conclui como dever ético do Estado manter a ordem objetiva e a autonomia.
Portanto, faz-se indispensável combater essa opressão. Para isso, cabe a atores primordiais- tais como os Ministérios da Educação e da Economia em união com a Sociedade Civil- a elaboração de um Plano Piloto. Tal programa deve oferecer cursos de qualificação profissional e oficinas pedagógicas para os sujeitos com o transtorno, enviando incentivos às empresas conscientes em adotar uma cultura inclusiva, além de fomentar debates e palestras sobre o tema, por meio da parceria entre esses órgãos, objetivando proporcionar acessibilidade e destruir as barreiras construídas pelo preconceito.