Os desafios da inclusão de pessoas com autismo no Brasil

Enviada em 18/09/2019

Apenas ficção

Em Memórias Póstumas de Brás Cubas, de 1881, o realista Machado de Assis já retratava a discriminação de pessoas com deficiência cujo personagem principal se apaixona por uma mulher “coxa”, mas não se casa com ela devido a sua deficiência. Todavia, a exclusão social retratada pela ficção - ainda- é a realidade de muitos autistas no Brasil, o que representa grave obstáculo à verdadeira inclusão social desse grupo. Com efeito, os desafios da inclusão de pessoas com autismo no Brasil tem como pilares o preconceito, e a negligência da sociedade em promover a isonomia.

A princípio, a intolerância àqueles que apresentam Transtornos do Espectro Autista configura como grave entrave para a inclusão. Sob essa análise, o sociólogo Gilberto Freyre defende, na obra “Casa-grande e Senzala”, que, durante a formação colonial, as diferenças eram vistas com repulsa. Assim, aqueles que divergiam do padrão considerado normal eram -e ainda são- marginalizados. Nesse sentido, sempre que alguém relaciona a palavra autista a uma piada ou preconceito, é nítido que a intolerância e discriminação denunciadas por Freyre ainda permanecem como cruel realidade. Portanto, não é razoável que a sociedade do século XXI manifeste posturas arcaicas à população com TEA.

De outra parte, sob a ótica sociológica, a existência da problemática no Brasil é intrinsecamente fomentada pela negligência e a compactuação da sociedade . De acordo com a Constituição Federal, o princípio da igualdade - desenvolvido por Aristóteles- previsto no artigo 5º, diz que “Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza”. Entretanto, apesar de o brasileiro ser mundialmente conhecido por ser um povo receptivo, substancial parcela ainda nutre uma grave mazela social para a democracia: a dificuldade de praticar a isonomia aristotélica. Dessa forma, a sociedade torna-se a principal vítima de suas próprias condutas.

Os desafios para incluir as pessoas com autismo na sociedade, portanto, são notórios e é preciso  que sejam eliminados para que esses indivíduos sejam tratados com dignidade. Para isso, o Ministério da Educação precisa, com urgência, desconstruir o histórico preconceito colonial, por meio de eventos pedagógicos -como palestras em escolas e universidades públicas- realizados com a participação de pessoas com TEA. Assim como, aliar-se à instituição familiar, para que sejam trabalhados valores como respeito e tolerância, a fim de minimizar o preconceito existente e incluí-los no âmbito social. Dessa forma, a iniciativa terá a finalidade de promover a efetiva inclusão, de forma isonômica, de modo que a discriminação social retratada por Machado de Assis seja, em breve, apenas ficção.