Os desafios da inclusão de pessoas com autismo no Brasil
Enviada em 25/08/2019
A teledramaturgia retrata o brilhante Shaun, personagem da série The Good Doctor, como um jovem autista que lida com inúmeros desafios na busca por uma formação médica. De maneira semelhante, a ficção transpassa a realidade quando se percebe a luta travada pelos portadores de autismo contra desafios reais que vão desde a formação escolar até a aceitação em sociedade. É necessário, portanto, que o autismo seja encarado como um problema social ao passo que exclui, segrega e acima de tudo, impossibilita o indivíduo do gozo de seus direitos.
Em primeiro lugar, cabe destacar que a despeito do Transtorno do Espectro Autista ser uma condição neuropsíquica relativamente nova, caracterizada pelo distúrbio de socialização do indivíduo, os números de incidência são altos. Estima-se, assim, que haja 150 mil novos casos por ano, de acordo com a Associação Nacional de Pais e Amigos Excepcionais – APAE, fato que aliado à imaturidade da discussão do tema em sociedade, resulta no desconhecimento e discriminação. Ademais, tudo que não é conhecido tende a ser rechaçado pelo meio social e nisso consiste a perversidade do autismo, não em sua condição em si, mas na exclusão provocada, na marginalização do convívio em sociedade, segundo Aristóteles, chave para felicidade.
Por outro lado, não se percebem esforços governamentais efetivos para debate do autismo, afora os de iniciativa própria. Nem mesmo onde esse deveria ser tema primeiro: na escola, elo iniciador da criança em sociedade. É na instituição escolar, de acordo com Paulo Freire, que a inclusão deveria ser aprendida, não lidando com igualdades, mas sobretudo com diferenças. Ao não debater, capacitar docentes, oferecer estrutura pedagógica e material, descumprindo a Lei de Diretrizes e Bases da Educação, o governo reproduz as mesmas desigualdades, a mesma segregação que a sociedade, relegando os portadores dessa e de outras condições, ao estigma e à discriminação.
É fundamental, portanto, instituir grupos multidisciplinares, pelo Ministério da Educação e Cultura, com psicólogos, assistentes sociais, neurologistas e psicopedagogos, que atuem em escolas com cursos e capacitações continuadas para as equipes docentes, permeabilizando o tema do autismo e da neurodiveridade no meio escolar, formando novos parâmetros. Bem como, estabelecer projetos itinerantes, pelas Secretarias de Direitos Humanos em associação com a APAE, por meio de palestras com pais, autistas e comunidade, que fomentem o diálogo entre os atores desse processo, promovendo inclusão e cidadania. Para que o exemplo do vitorioso Shaun não seja apenas ficção, mas que atinja, com sucesso, a vida de milhares e milhares de autistas.