Os desafios da inclusão de pessoas com autismo no Brasil
Enviada em 03/08/2019
Segundo o sociólogo contemporâneo Sérgio Buarque de Holanda, as habilidades comportamentais dos brasileiros são orientadas pelo altruísmo e pela compaixão. Tal premissa, no entanto, não se aplica à promoção da inclusão de pessoas com autismo no País, visto que esse grupo é constantemente desrespeitado e excluído do âmbito social. Assim, faz-se fundamental analisar a problemática e os desafios relacionados a ela, com destaque ao preconceito da sociedade brasileira e à falta de efetividade dos mecanismos governamentais.
A priori, é válido reconhecer o prejulgamento do meio social perante os portadores do transtorno autista como um dos principais entraves da problemática. Conforme a filósofa alemã Hannah Arendt, a condição essencial do ser humano é a aceitação do diferente e a presença da pluralidade numa comunidade. Nessa perspectiva, o padrão comportamental excludente da sociedade brasileira e a incompreensão das características do autismo por uma parcela da população confrontam diretamente o pensamento de Arendt, já que esse cenário desarticula a diversidade social e provoca a repulsão contra indivíduos possuidores da síndrome. Desse modo, a exclusão desse grupo populacional é tratada com desprezo e passa a ocorrer frequentemente.
Além disso, a ineficácia governamental em proteger os autistas também pode ser apontada no estudo do problema. Acerca disso, é possível relacionar a realidade brasileira com o conceito de “Cegueira Moral”, desenvolvido pelo escritor José Saramago para retratar a passividade das instituições sociais diante dos graves problemas que afetam o meio comunitário. De maneira análoga, os agentes governamentais tornam-se parciais quanto à ausência de inclusão dos autistas, pois, mesmo que existam mecanismos de proteção a esse grupo de forma oficial, não há efetividade e regulamentação desses aspectos na prática. Dessa forma, o Poder Público não cumpre com seu papel de garantir a igualdade entre todos os cidadãos, como está previsto na Constituição Federal, e a sociedade tupiniquim passa a ser tão catastrófica quanto o conceito de Saramago.
Fica evidente, portanto, que são necessárias medidas para superar os desafios relacionados à inclusão de pessoas autistas no Brasil. Logo, é mister que o Estado e os meios midiáticos promovam a desconstrução do preconceito e da repulsão contra portadores desse transtorno, mediante campanhas publicitárias que objetivem informar a população acerca das características do autismo. Outrossim, o Poder Público, como instituição promotora da igualdade entre os grupos sociais, também deve efetivar os instrumentos de preservação aos possuidores da síndrome, por meio da criação de órgãos governamentais que visem a implantação e a fiscalização das leis relacionadas ao transtorno autista.