Obstáculos para a doação de sangue no Brasil
Enviada em 01/09/2021
No início do século XVII, eram realizadas- experimentalmente- as primeiras transfusões de sangue em humanos o que, posteriormente, resultaria na descoberta da cura de diversas enfermidades. Entretanto, hodiernamente, mesmo com a evolução dos estudos científicos e do avanço da medicina, as doações de sangue ainda enfrentam obstáculos estruturais que dificultam a iniciativa do gesto altruísta no Brasil. Nesse contexto, esse cenário nefasto occore não só em razão da falta de políticas públicas que incentivem a doação sanguínea, mas também pelo gesto ser fortemente estigmatizado e mistificado na sociedade brasileira.
Deve-se pontuar, de início, a carência de ações e medidas públicas como influência nos projetos de doações. Então, conforme o pensamento do filósofo Zygmunt Bauman, crítico da modernidade líquida, as instituições governamentais- configuradas como zumbis- perderam suas funções sociais, todavia, tentam mantê-la a todo custo. Nesse aspecto, definido como zumbis por Bauman, as medidas e as políticas estatais acabam por falhar no que tange ao desenvolvimento de campanhas de conscientização acerca das transfusões de sangue e, consequentemente, estabelece uma cultura de descomprometimento e de descaso com a adoção do gesto solidário.
Ressalta-se, ademais, os estigmas associados à doação como empecilho na decisão de realizar coletas sanguíneas em hemocentros. De acordo com o pensamento Durkheimiano, o ser é aquilo que a sociedade faz dele e, consequentemente, suas ações e seus pensamentos são frutos derivados pelo núcleo amplamente sociável. Dessa forma, assim como explanado por Durkheim, o grupo social que associa estigmas- vetor para doenças, processo invasivo, doloroso- à doação de sangue tem, por conseguinte, esferas sociais- progressivamente- desinformadas e distantes dos hemocentros, uma vez que os preconceitos ligados ao sistema realiza a manutenção da percepção negativa da ação altruísta. A prova disso, a Fundação Pró-Sangue disponibilizou infográficos nos meios de circulação contendo informações que esclarecem as inverdades que permeiam na rede da saúde.
Evidencia-se, portanto, a persistência de obstáculos estruturais no decorrer das transfusões no Brasil. Nesse âmbito, compete ao Ministério da Saúde- órgão de maior autoria e influência- incentivar as doações de sangue, por meio da promoção de campanhas conscientizadores, com o objetivo de estimular o gesto solidário da sociedade verde e amarela. Além disso, a mídia deve desmistificar o ato de doação de sangue, por intermédio de propagandas informativas, com o intuito de combater as percepções errôneas associadas à coleta sanguínea. Feito isso, o Brasil poderá caminhar rumo à completude da efetização funcional das redes de saúde.