O uso da Cannabis medicinal no Brasil
Enviada em 08/09/2022
Na série “Pico da neblina”, é retratado um contexto fictício em que o uso da maconha foi liberado por lei no Brasil. Ao longo da trama, a narrativa revela que o uso da planta permeia as relações sociais e familiares. Fora da ficção, é fato que a realidade apresentada na série pode ser relacionada ao uso da “Cannabis” medicinal no Brasil: a droga estar associada a grupos periféricos e a manuntenção das desigualdades.
Em primeiro lugar, é importante destacar que existe um estereótipo social ligado à maconha. Em oposição à existência da democracia racial, segundo Gilberto Freyre, a planta por estar associada a populações negras e periféricas é criminalizada vis-a-vis o álcool e cigarro, drogas mais presentes no dia a dia dos brancos. Assim, o uso medicinal daquela é dificultado pelo preconceito em uma sociedade punitivista, a qual tem como alvo central povos marginalizados. Quer dizer, usar maconha implica em ser identificado como parte desse povo.
Além disso, liberar o uso medicinal da erva poderia promover a redução da desigualdade social. Já que a maior parte da produção é realizada por indivíduos marginalizados, a legalização integraria esse produto aos circuitos da economia, o que levaria mais renda para essas pessoas. No entanto, tal processo é impedido propositalmente. Segundo Karl Marx, a ideologia capitalista visa manter a ordem que está em curso para a burguesia continuar explorando a classe trabalhadora. Dessa forma, manter as desigualdades de forma a impossibilitar a integração de determinados grupos aos circuitos econômicos, é mantê-los subalternos à exploração da elite econômica. Isto é, legalizar o uso medicinal irrestritamente desetruturaria o status quo da sociedade brasileira.
Portante, é preciso que o Estado mude o cenário atual. Para que o uso medicinal da “Cannabis” não se reduza a um estereótipo social e seja propulsor na redução das desigualdades, urge que o Ministério da Saúde faça propagandas educativas em redes sociais e na rede aberta de televisão por meio de dados científicos e exemplos no avanço de tratamentos de algumas doenças, como no autismo, por exemplo. Com efeito, a utopia retratada no “Pico da neblina” se tornará uma realidade.