O trabalho escravo no Brasil contemporâneo
Enviada em 09/10/2020
Em sua alegoria “Ensaio sobre a cegueira”, José Saramago retrata uma sociedade que se tornou cega. Entretanto, em diversos trechos, ele demonstra que os indivíduos já apresentavam essa condição por negligenciarem os males aos seus arredores. Nesse sentido, o trabalho escravo no Brasil contemporâneo, causado principalmente pela defasagem de políticas públicas e pela banalização desse cenário, encaixa-se perfeitamente com a obra, na medida em que os impactos negativos dessa realidade são constantemente negligenciados por parte do corpo social. Com efeito, um diálogo entre sociedade e Estado, sobre os caminhos para se combater esse problema, é medida que se impõe.
Convém ressaltar, a princípio, o processo histórico de formação dos grupos à margem da sociedade, como negros, pobres e analfabetos. Durante o período colonial no Brasil, a venda de escravos africanos era prática constante na sociedade da época. Por conseguinte, esses grupos são, em sua maioria, a parcela da população suscetível à cargos abusivos, análogos à escravidão.
Ademais, o descaso governamental contribui de forma significativa para a manutenção dessa realidade. Apenas libertar os trabalhadores em condições degradantes de trabalho não é necessário, pois para onde irão e como irão se sustentar logo após? Essa premissa está relacionada ao conceito de “violência subjetiva”, proposto pelo filósofo Slavoj Zizek, em que a coerção invisível é sutil e engendrada pelo próprio sistema das relações vigentes. Não há garantia de uma melhoria de vida mesmo após a liberdade desses indivíduos.
Infere-se, portanto, que medidas são necessárias para a mitigação dessa adversidade. Cabe ao governo federal possibilitar às comunidades marginalizadas, educação de qualidade e melhores oportunidades de formação pessoal, para que os trabalhadores submetidos à essas condições tenham chances efetivas de elevação profissional e sejam contratados para cargos regulamentados.