O patriotismo em questão no Brasil

Enviada em 14/08/2020

Para o antropólogo brasileiro Darcy Ribeiro, o Brasil não corresponde a uma unidade homogênea, mas a, como ele próprio diz, vários “brasis”. Diante desse pensamento e da constatação das múltiplas realidades nacionais, o patriotismo torna-se uma questão, dada a heterogeneidade característica da pátria. Nesse sentido, as desigualdades abissais entre as regiões, bem como o complexo de inferioridade presente em muitos brasileiros — os quais se colocam em posição de subserviência ideológica a outros países —, constituem os principais desafios ao cultivo desse sentimento patriótico.

Inicialmente, faz-se necessário compreender a relação entre desigualdade e patriotismo. Nesse contexto, o historiador brasileiro Boris Fausto, em seu livro “História do Brasil”, narra que, com o acúmulo de capital da economia cafeeira, as regiões Sul e Sudeste rapidamente se tornaram as mais industrializadas, e consequentemente as mais ricas, do país. Com isso, o restante do território foi esquecido e negligenciado pelos governantes, o que se reflete até os dias de hoje, com diferenças marcantes em saneamento, educação e saúde. Dessa forma, torna-se no mínimo difícil para os habitantes da “terra brasilis” se identificarem todos uns com os outros — e com a própria pátria — diante de realidades tão díspares, o que interfere, obviamente, no sentimento patriótico.

Além disso, há a postura submissa assumida por muitos brasileiros, os quais acreditam na superioridade de outras nações e, consequentemente, na inferioridade do Brasil perante elas. A isso, o escritor e dramaturgo Nelson Rodrigues deu o nome de “complexo de vira-lata”,  termo que ele define como “a inferioridade a que o brasileiro se coloca, voluntariamente, em face do resto do mundo”. Dentro dessa perspectiva — possivelmente justificada pelos repetidos escândalos de corrupção, pelo imenso potencial econômico desperdiçado e pelos baixos índices de desenvolvimento —, o indivíduo faz questão de endossar outros países em detrimento do seu, chegando até a se orgulhar de não ser um patriota. Assim, medidas que atuem na raiz do problema são fundamentais e urgentes a fim de unir os conterrâneos em favor de um futuro melhor e mais próspero para todos.

Logo, o Governo Federal deve atuar, primeiramente, na nacionalização de todos os serviços básicos, providenciando qualidade de vida a toda a população. Isso deverá ser feito por meio de investimentos massivos principalmente na educação e saúde, em especial nas regiões mais precarizadas. Desse modo, a disparidade brutal entre as realidades será atenuada, promovendo uma maior identificação entre todo o povo.