O patriotismo em questão no Brasil
Enviada em 06/05/2020
Na canção “Meu lugar”, o sambista Arlindo Cruz apresenta uma visão nostálgica e sobredourada diante do lugar onde crescera: Madureira. Nela, é evidente a sensação de orgulho e de pertencimento do cantor com seu berço. No entanto, tais características, no que concerne aos cidadãos em face da própria pátria, mostram-se, atualmente, tolhidas, o que põe em voga a questão do patriotismo no Brasil. Destarte, aponta-se a apropriação cultural de outrem como a principal razão da problemática, a qual incita uma tortuosa aversão aos compatriotas brasileiros.
De início, afirma-se que tal conjuntura cultural, no país, é fruto da mercantilização cultural. Para depreender essa, cabe evocar os filósofos Adorno e Horkheimer e a teoria “Indústria Cultural”. Nela, os alemães preconizaram a existência de um viés capitalista inerente às produções e manifestações culturais da Era Digital. Nesse sentido, em suma, os cidadãos, em virtude das dinâmicas de integração sociocultural do século XXI, são postos perante uma espécie de vitrine cultural, cujos produtos de maior destaque, comumente, perpassam o território nacional. Sendo assim, os indivíduos, ao se ancorarem às idiossincrasias estrangeiras em detrimento das locais, segregam as tradições brasileiras e, consequentemente, afastam-se do patriotismo, de modo a mirar à insuficiência governamental sob a esfera cultural como estopim desse impasse.
Por conseguinte, enquanto esse quadro perdurar, é notório que os próprios brasileiros, muitas vezes, denotam uma estigmatização acerca de sua nacionalidade. Conquanto controverso, esse traço dialoga com a “Impaciência Cognitiva”, de Maryanne Wolf. Com esse conceito, a neurocientista e professora estadunidense prega a ocorrência de, hoje, uma avareza racional, isto é, em razão de reações rápidas e pouco refletidas estimuladas pela contemporaneidade, as pessoas, geralmente, desvencilham-se de pensamentos empáticos, que vão além de seus conhecimentos prévios, tolhendo-se em bolhas socioculturais. Sob esse prisma, os indivíduos, acostumados a enaltecer os demais costumes em suas bolhas, proferem discursos minimamente preocupados com as concepções alheias, sugerindo uma sociedade aversa tanto à sua cultura, quanto à sua pátria.
Portanto, visto a intempestividade dessa mazela social, infere-se a imperiosidade em dissolvê-la do arcabouço nacional para garantir maior integração entre indivíduo e nação. Para tanto, compete ao Estado, por meio do Ministério da Cidadania - instância deliberativa máxima sobre a sociedade brasileira -, o dever de, mediante apoio midiático, criar e conduzir campanhas às famílias do país, de forma a, nessas, promover o sentimento de patriotismo atrelado à cultura regional, a fim de buscar tais cidadãos, em suas respectivas bolhas, e de atenuar a aversão conterrânea.