O patriotismo em questão no Brasil
Enviada em 28/04/2020
No romance pré-modernista “Triste Fim de Policarpo Quaresma”, idealizado por Lima Barreto, retrata-se a transformação ideológica do protagonista Policarpo, em que este evolui do nacionalismo ufanista à frustração. De maneira análoga, denota-se que a valorização da pátria, em um plano realista, ainda é escassa na coletividade brasileira. Com efeito, há obstáculos para consolidar um verdadeiro patriotismo no Brasil hodierno, ora pela má gestão do Estado, ora pelo individualismo da sociedade, o que torna mister expor e viabilizar medidas para mitigar esses impasses.
Em primeira análise, é imperativo pontuar que o excesso de corrupção e o desvio dos princípios democráticos da Constituição Federal de 1988 obstaculizam a emancipação nacional, em prol do sentimento patriótico. Nesse sentido, tal fator dificulta a construção identitária dos cidadãos com a nação, devido ao ineficiente papel do Estado, no que tange ao cumprimento dos deveres constitucionais. Esse panorama pode ser analisado à luz do sociólogo Émile Durkheim, a partir de seu conceito denominado “corpo biológico”, em que este afirma que a sociedade deve se assemelhar a um corpo humano, haja vista que, o mau funcionamento de uma das estruturas pode comprometer o todo. Logo, é substancial que a atuação do Poder Público seja mais promissora em metodologias práticas.
Outrossim, é válido averiguar que o excessivo individualismo nas esferas sociais prejudica a mobilização política dos indivíduos em favor de um bem-estar comum. Nesse contexto, é nítido que, assim como defende o historiador Zygmunt Bauman, em sua ideia de “modernidade líquida”, a sociedade prioriza cada vez mais a individualidade em detrimento do bem coletivo. Desse modo, as relações sociopolíticas e o engajamento da população em questões públicas tornam-se cada vez mais supérfluos, por consequência da liquidez dos valores contemporâneos.
Em síntese, a observação crítica dos fatos sociais reflete a urgência de medidas para ampliar a valorização nacional e sua simbologia. Portanto, cabe ao Governo Federal, junto aos órgãos responsáveis, fiscalizar de forma mais efetiva as ações de corrupção praticadas por pessoas e organismos públicos, bem como julgá-las com maior rigor, por meio da articulação dos poderes Legislativo e Judiciário, a fim de romper com a impunidade e a normalização de atos de deturpação à democracia. Ademais, o Ministério da Educação deve, mediante verbas públicas, promover projetos voltados para a educação cidadã nas escolas, por meio de aulas e palestras educativas, com o objetivo de promover um exercício eficaz da cidadania. Assim, será possível concretizar um patriotismo lúcido no Brasil atual.