O patriotismo em questão no Brasil
Enviada em 13/04/2020
Na canção “Meu lugar”, o sambista Arlindo Cruz retrata, com emoção, o espaço onde crescera: o bairro Madureira, no Rio de Janeiro; usando de adjetivos e de marcas linguísticas nostálgicas para sobredourar o sentimento de pertencimento. Todavia, o comportamento dos cidadãos, hoje, frente ao Brasil, é fortemente dissonante da mensagem oferecida por Arlindo, o que põe em voga o patriotismo no país. Dessarte, vale apontar as dinâmicas geográficas de integração como uma razão para o problema, as quais incitam aversão às tradições regionais.
De início, é lícito dizer que o fenômeno da Globalização, cujo resultado direto é a criação de laços entre povos, circunscreve a problemática. A fim de se depreender disso, vale evocar o geógrafo David Harvey, quem, reconhecido pela teoria da diminuição alegórica do mundo, postulou que, atualmente, o planeta é decerto pequeno e extremamente integrado, corroborando a Aldeia Global. Sendo assim, como a cultura insere-se nesse panorama harveyano, os brasileiros, muitas vezes, enaltecem os costumes estrangeiros em detrimento dos endêmicos, de forma a outorgar seu patriotismo ao escalonamento cultural, ou seja, às tradições que, perante o arsenal de costumes aderíveis em virtude da Globalização, mais satisfazem seus preceitos, criando um culto à aversão cultural do país.
Por conseguinte, enquanto essa conjuntura perdura, a manutenção desse preconceito em face da própria nação agrava, ainda mais, a falta de patriotismo na sociedade. Isso porquanto, ao passo que as tradições de cada país são postas em “vitrines”, aqueles que optam por se agarrar ao nacionalismo são confrontados de modo ora físico, ora moral. Evidência desse quadro é, por exemplo, o livro “Preconceito Linguístico - o que é, como se faz?” do linguista Marcos Bagno, haja vista que ele aponta as desavenças entre indivíduos de um mesmo país, o Brasil, motivadas por disparidades tanto regionais, quanto culturais. Dessa maneira, esse nefasto traço da Aldeia Global torna, potencialmente, Arlindo vulnerável por engrandecer o país.
Portanto, infere-se que, visto a intempestividade do problema, é necessário conter as diretrizes tortuosas da Globalização no Brasil, objetivando dissolvê-lo. Para tanto, compete ao Ministério da Cidadania, enquanto órgão deliberador acerca dos indivíduos, nacionalmente, o dever de criar campanhas que favoreçam a cultura e o nacionalismo e, em conjunto do Ministério da Educação, inserir na Base Nacional Comum Curricular, disciplinas com foco no ensino dos costumes brasileiros, por meio de políticas públicas e de verbas governamentais, visando ao engrandecimento do patriotismo no país. Somente assim, observar-se-iam indivíduos que aderem às tradições brasileiras e que constroem o sentimento de pertencimento de Madureira, porém, tornando o Brasil no “meu lugar”.