O papel da literatura na sociedade contemporânea

Enviada em 02/11/2019

Em Vidas Secas, Graciliano Ramos retrata a rotina desesperadora de uma família nordestina, que vive de fazenda em fazenda, isolada do mundo exterior. Mais do que um romance sobre a seca e o nordeste, a história de Fabiano e Sinhá Vitória se constitui como um manifesto sobre o poder da linguagem. Nesse sentido, a literatura, que, por Pessoa foi definida como “a maneira mais agradável de ignorar a vida”, carrega consigo a versatilidade de assumir diferentes propósitos. Em gestos de fuga e imersão, as obras literárias possuem não somente o poder de ampliar o conhecimento intelectual e cultural, mas também desenvolver o senso crítico e promover a formação de cidadãos conscientes.

Em primeiro lugar, é perceptível a prevalência de um revés no que se refere à formação de novos leitores no Brasil. Dados apurados por uma pesquisa realizada pelo Instituto Pró-Livro em 2016, revelam que 30% da população brasileira nunca comprou um livro. Semelhantemente ao que Drummond escreveu sobre as dificuldades da vida em seu poema “No meio do caminho”, a literatura brasileira ainda enfrenta muitos estigmas por parte de determinadas camadas sociais. Nessa perspectiva, a concessão imediata do poder intelectual aos que leem, se concebe como um elemento indicativo de poder e dominação social. Assim, observa-se que a formação de estereótipos afasta possíveis novos leitores e isola os já existentes.

Outrossim, nota-se a importância de analisar a questão sob um viés político. Os livros, que, por ora, podem ser classificados como uma importante ferramenta de protesto, trazem à tona questões nem sempre debatidas nos ambientes acadêmicos. Desse modo, por meio da abordagem de diferentes pontos de vistas, as dimensões culturais da literatura são responsáveis por despertar no indivíduo a necessidade de refletir e questionar as verdades impostas pela sociedade. Por conseguinte, obtém-se não a transformação do homem, e, este, enquanto sujeito social, contribui para o progresso dos que estão ao seu redor.

Diante do exposto, torna-se imprescindível a adoção de políticas mediadoras a fim de potencializar os encargos da literatura. Na busca pelo incentivo à leitura, urge que o Ministério da Educação promova contato dos alunos com os livros desde a infância, por meio da elaboração de uma matriz curricular que realce os benefícios da literatura. A medida deverá contemplar, ainda, a promoção de cursos regulares para os professores do ensino da rede pública e privada a fim de que eles estejam a par dos avanços das ciências da língua. Assim, a Literatura deixará de vista como a disciplina dos enredos maçantes e reassumirá seu verdadeiro encargo que é o de esquadrinhar o funcionamento da mente humana por intermédio dos materiais linguísticos.