O indígena brasileiro em foco na atualidade

Enviada em 23/08/2017

Os estrangeiros

Em seu poema “Erro de Português”, o escritor Modernista Oswald de Andrade constrói a imagem metafórica do colonizador europeu vestindo o índio, com o objetivo de representar um conjunto de práticas de imposição cultural. Analogamente, mais de 500 anos depois da chegada dos primeiros exploradores ao Brasil, a sociedade contemporânea perpetua a marginalização desses povos nativos, que são limitados em seu acesso à territórios e à representatividade democrática.

Inicialmente, mencione-se a falta de preocupação do vínculo indígena com a terra nos processos de desapropriação. Nesse contexto, a remoção de aldeias localizadas às margens do Rio Xingu, na Bacia Amazônica, para a construção da Hidrelétrica de Belo Monte expulsou mais de mil indígenas dos locais com os quais sua tribos mantinham relações de aspecto cultural, hereditário e espiritual. Sob esse viés, percebe-se que os estudos de viabilidade econômica desses empreendimentos não são acompanhados de análises efetivas de impactos culturais e humanos ocasionados pelo alagamento permanente dessas regiões. Assim, privar essa minoria do direto a habitar suas terras de origem é agir como os colonizadores portugueses e agredir o modo de vida e a identidade desses povos.

Ademais, em uma sociedade democrática, na qual as instâncias políticas decidem o destino de todos os indivíduos no territórios nacional, é urgente conceder representatividade aos índios. Dessa maneira, nota-se a ausência desses cidadãos na ocupação de cargos eletivos nas principais Casas Legislativas como uma problemática a ser resolvida. Segundo dados do Tribunal Superior Eleitoral não foram eleitos, em 2014, candidatos autodeclarados indígenas para ocupar posições no Congresso Nacional. Assim, verifica-se a impossibilidade de efetivar o respeito aos direitos desses nativos sem o seu protagonismo nas principais rodas de debate intelectual e político do país, não para aculturá-los, mas para garantir o diálogo entre suas aldeias isoladas e o cenário democrático brasileiro

Por fim, a questão indígena tem origens na despreocupação histórica com o patrimônio cultural e a participação política desses grupos. Para reverter esse cenário, as Secretarias de Educação Municipais podem promover feiras de valorização das idiossincrasias culturais desses povos, de modo a formar alunos críticos acerca do desapropriação de suas terras e que atuem na luta pela conservação dessas reservas.  Conjuntamente, o Poder Legislativo deve editar norma que garanta cota de 10% dos cargos de Deputados Federais para índios, no intuito de garantir a sua representatividade e diálogo político plural. Talvez, assim, seja possível evitar que, como apontou a célebre jornalista Eliane Brum, os índios sejam tratados como “estrangeiros nativos” no território nacional.