O indígena brasileiro em foco na atualidade

Enviada em 10/07/2018

Retratados como heróis da pátria em “O Guarani” ou associados ao conceito do herói sem nenhum caráter na obra “Macunaíma”, os povos indígenas foram constantemente referidos na literatura por autores como José de Alencar e Mário de Andrade. No entanto, seja de maneira a elevá-lo a um patamar de perfeição, seja rebaixando-o a um ser indolente, o índio sempre teve sua imagem associada a estereótipos pouco relacionados a sua cultura. Hodiernamente, ainda pouco é falado sobre seu acervo cultural e a figura indígena continua sendo julgada e negligenciada, de modo a causar danos na qualidade de vida e na representatividade desses.

Nesse contexto, a visão estereotipada do índio apresenta raízes antigas e reflete no cenário atual. Dessa forma, é possível perceber que os primeiros cronistas, entre eles Pero de Magalhães Gândavo, mostram um grupo “sem fé, sem lei e sem rei”, revelando um pensamento etnocêntrico e preconceituoso que, apesar de arcaico, parece atemporal. Desse modo, essa concepção submete o índio a uma série de situações desumanas, visto que a identificação e a preocupação com esse grupo são quase inexistentes. Prova disso é que, levantamentos do Conselho Indigenista Missionário mostram que, do total de mortes infantis no Brasil, 55% são de índios, para mais, entre as mortes de indivíduos dessa etnia, mais de 15% ocorrem pela falta de acesso a serviços básicos de saúde.

Em segunda instância, por mais que apresentem uma formação heterogênea, os brasileiros ainda negligenciam a cultura daqueles que foram pioneiros na ocupação dessa terra. Nesse viés, destaca-se a questão das terras demarcadas como reservas indígenas, que, segundo dados da Fundação Nacional do Índio, correspondiam à 12,5% do território nacional no ano de 2010. Contudo, o avanço do setor agrícola, bem como a expansão das atividades madeireiras perpassam os limites estabelecidos pela lei e atingem as áreas indígenas com o intuito de extrair e gerar lucro, sendo responsáveis pelo índice de desmatamento atual, 11 vezes maior que no ano de 2005, conforme a mesma fonte.

Urge, portanto, a adoção de medidas que solucionem o impasse. A priori, é imprescindível que haja a eleição de representantes indígenas no Congresso, para que seja dada a devida atenção às lutas desse povo, visto que são os únicos que realmente conhecem sua realidade. Outrossim, cabe ao Governo investir na instalação de hospitais em áreas próximas a terras indígenas, a fim de instituir políticas de prevenção e tratamento de doenças; ademais, é conveniente que unam os conhecimentos médicos ocidentais às práticas de tratamento utilizadas por pajés, com o fito de alcançar cada vez mais indivíduos com os serviços de saúde. Quem sabe assim, por meio do reconhecimento indígena, os estereótipos românticos e modernistas deem lugar à verdadeira imagem do índio brasileiro.