O impacto dos ultraprocessados no padrão alimentar brasileiro.
Enviada em 24/08/2020
No final do século XVIII, na Inglaterra, houve um processo de reestruturação das manufaturas da época, a chamada Revolução Industrial a qual, de forma explosiva e súbita, provocou mudanças substanciais nas estruturas sociais, não só, no que se refere às relações interpessoais, como também ao relacionamento entre consumidor e produto. Segundo o historiador Eric Hobsbawm, a Revolução propiciou o surgimento de um “sistema fabril” tão bem consolidado que, ao articular produção em massa a custos pequenos, emancipou-se da demanda existente e criou seu próprio mercado. Da mesma forma, no ramo alimentício, tais inovações oportunizaram a preservação de alimentos e sua distribuição em larga escala. Contudo, embora tal recurso tenha sido benéfico a princípio, ele esconde uma assustadora realidade: a adição excessiva de ingredientes, como o sal e o açúcar, a alimentos ultraprocessados cujo consumo a longo prazo pode causar danos terríveis à saúde.
Antes de tudo, é necessário elucidar as causas da popularidade desse segmento, uma vez que, conforme dados divulgados pela Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS), seu consumo aumentou em 9,2% entre 2014 e 2019. Dentre os motivos que explicam esse crescimento, destaca-se o imediatismo da sociedade contemporânea, especialmente entre os mais jovens, em que há um culto ao instantâneo, em detrimento ao preparo cuidadoso de uma alimentação balanceada. Em outras palavras, sob o pretexto de uma maior praticidade, prioriza-se a compra de ultraprocessados os quais, se consumidos em excesso, podem levar, por exemplo, ao sobrepeso e a uma maior propensão a se desenvolver doenças cardiovasculares.
No entanto, embora se tenha evidências de que esses produtos são maléficos à saúde, as grandes empresas não recuam em seu marketing abusivo e desonesto. Conforme Ana Paula Bortoletto, graduada em Nutrição pela Universidade de São Paulo (USP), elas utilizam, em seus rótulos, a fim de “enganar” seu consumidor, termos técnicos, letras pequenas, embalagens visualmente poluídas, além de informações que requerem cálculos de porção, com os quais a população leiga não está habituada.
É imprescindível, portanto, que o Ministério da Saúde informe ao consumidor acerca dos nutrientes presentes em excesso nos produtos e as consequências de seu consumo ao bem-estar, por meio da rotulagem frontal desses com símbolos fáceis e rapidamente decifráveis, os quais alertarão que há em demasia algum ingrediente. Espera-se também que tal padronização incentive as grandes empresas a alterarem a composição de suas mercadorias, de forma que possam excluir o símbolo de suas embalagens e possam recuperar a denominação de “alimentos sem quaisquer riscos”. Com isso, o consumidor terá acesso à informação e poderá realizar escolhas conscientes à sua alimentação.