O impacto dos influenciadores digitais na formação dos jovens
Enviada em 15/04/2020
“Estou farto de semideuses”. Essa célebre frase do poeta português Fernando Pessoa é facilmente ambientada na sociedade atual, na qual se convive, em meio às redes sociais, com indivíduos aparentemente perfeitos e exemplares, os denominados influenciadores digitais. É inquestionável, assim, a análise e discussão sobre os impactos destes na formação dos jovens, visto que os “influencers”, não só propagam padrões e estereótipos, mas também difundem valores consumistas.
De início, é importante analisar os impactos da propagação das realidades idealizadas e perfeitas -expostas por meio dos influenciadores- na formação da juventude brasileira. Sob a ótica do filósofo francês Pierre Bourdieu, “nós interiorizamos a exterioridade e exteriorizamos a interioridade”, ou seja, os indivíduos estão fadados a tornarem-se massa de manobra, isto é, a aceitarem, acriticamente, o que está presente nas redes sociais como um padrão de vida altamente almejado, porém inatingível. Desse modo, os jovens, ainda em formação, comparam seus “bastidores” com o “palco” de tais modelos virtuais, de tal forma que a insatisfação torna-se um sentimento recorrente entre os adolescentes. Por conseguinte, cria-se uma sociedade de jovens ansiosos, em depressão, com crise de identidade e baixa auto-estima, em virtude de corriqueiras comparações com vidas utópicas exibidas na internet.
Além de propagarem padrões de vida inatingíveis e, assim, causarem diversos problemas psicológicos, os influenciadores também moldam comportamentos joviais no mundo capitalista. Segundo o escritor inglês George Orwell, “a massa mantém a marca, a marca mantém a mídia e a mídia controla a massa”. Paralelamente a essa afirmação, vive-se em uma sociedade na qual marcas e produtos são propagados, pelo principal meio midiático da atualidade,a rede social, local de atuação dos influenciadores digitais, os quais potencializam-na. Dessa forma, a juventude –a qual é facilmente coagida por esses profissionais- torna-se manipulável, e se desenvolve em um mundo consumista em que a mídia controladora impõe, cotidianamente, valores em que o ter sobrepõe-se ao ser.
Em síntese, conclui-se que é imprescindível que medidas sejam tomadas, a fim de melhorar o quadro atual. Urge, portanto, que a família, juntamente às instituições educacionais e aos próprios influenciadores, conscientizem e mostrem aos jovens o valor da vida real, a normalidade dos problemas e a naturalização das diferenças. Isso será feito por meio de palestras oferecidas por profissionais nas escolas, mas, principalmente, através da exposição da realidade humana e comum dos influenciadores, a fim de formar uma juventude mais segura e estável em seus sentimentos e relacionamentos. Somente assim, a sociedade de semideuses reprovada por Fernando Pessoa, dará lugar a uma sociedade de seres, verdadeiramente, humanos.