O impacto dos influenciadores digitais na formação dos jovens

Enviada em 16/04/2020

Durante o Estado Novo, o rádio configurava-se como a principal ferramenta utilizada para garantir  adesão populacional ao governo. Entretanto, se houvesse vivido na pós-modernidade, Getúlio Vargas certamente haveria optado pelas redes sociais e pela figura de influenciador digital como estratégia promissora. Isso porque essa profissão, criada a partir da revolução do meio técnico-científico-informacional, analisado por Milton Santos, tem impactado significativamente, e perigosamente, o desenvolvimento dos jovens, seja na sua formação ideológica, seja no modo consomem.

Para uma fase caracterizada pelas dúvidas e descobertas, os influenciadores digitais tornaram-se modelos de como se deve pensar, agir e viver., o que é preocupante à medida que essa é uma causa de alienação e frustração. Isso se justifica pelas discrepâncias entre o que é mostrado nos meios virtuais e a realidade, uma vez que as aparências das redes sociais quase sempre exibem a opinião, o corpo e o estilo de vida “ideais”, padrões que ressignificam o conceito de “habitus” explicado por Pierre Bourdieu. Nesse sentido, os jovens passam a assumir o papel do robô da canção “Admirável Chip Novo”, da cantora Pitty, agindo segundo um sistema que impõe parâmetros impossíveis de serem alcançados. As consequências? Indivíduos passivos, frustrados e com baixa autoestima.

Em um segundo instante, é preciso enfatizar que os influenciadores digitais induzem um comportamento consumista na juventude. Isso está atrelado ao constante marketing digital realizado em postagens e vídeos, nos quais ressaltam-se marcas amigáveis e preocupadas com o bem-estar do consumidor e produtos indispensáveis à sobrevivência humana. Pode-se constatar tal fato a partir de uma pesquisa realizada pela empresa YouPix, segundo a qual em torno de 50% dos entrevistados entre 18 e 34 anos já fizeram alguma compra de acordo com as sugestões compartilhadas por esses profissionais. Dessa maneira, percebe-se a contemporaneidade do pensamento do sociólogo Karl Marx, afinal tudo, inclusive o cotidiano das pessoas, vira mercadoria no contexto do capitalismo tardio.

É imprescindível compreender, portanto, que a influência exercida pelos criadores de conteúdo sobre a juventude tem se tornado perigosa, porquanto padrões de vida e consumo têm sido impostos. A alteração desse cenário daria-se através da utilização das redes sociais, pelos próprios influenciadores, de uma forma mais heterogênea e responsável, voltada para temáticas relevantes de ordens pessoal e coletiva, como a ansiedade e a violência sexual, por exemplo. Assim, os jovens não só deixariam de metaforizar o robô da canção de Pitty, como estariam incentivados a serem mais autônomos e críticos, necessidades realmente indispensáveis na conjuntura da revolução 4.0.