O impacto dos influenciadores digitais na formação dos jovens
Enviada em 16/04/2020
O conceito de “mídia como corpo docente”, estreado pelo filósofo brasileiro Mário Sérgio Cortella, chama atenção para o fato de, hodiernamente, a mídia atuar como agente educador na formação dos jovens, provocando uma reflexão a respeito dos ensinamentos transmitidos. Nesse contexto, tem-se os chamados “influenciadores digitais”, os quais, majoritariamente, limitam-se a promover marcas e estilos de vida associados à aquisição de produtos. Dito isso, a manipulação e indução à compra, com base no “marketing” disfarçado de indicação casual e espontânea por parte desses perfis, e a inversão do “ser” em detrimento do “ter” fazem parte da influência a que os jovens vêm sendo expostos.
No livro “O Toque Invisível”, o autor Harry Beckwith explica o “marketing invisível”, o qual se baseia na propaganda feita de modo sutil, sem as características explícitas de um anúncio publicitário. Essa ideia também foi modulada para as mídias digitais: em postagens informais e, aparentemente, despretensiosas, a sugestão do produto é feita pelos influenciadores — como se estes estivessem compartilhando com seus seguidores um segredo pessoal e genuíno de beleza, praticidade ou qualquer outra coisa que se deseje vender. Dessa forma, os milhões de jovens que acompanham essas personalidades são, a todo instante, manipulados, pois acreditam pretender tais bens de consumo por razões individuais e/ou ponderadas a partir de opiniões tidas como verdadeiras. Isso fere, inquestionavelmente, a autonomia e liberdade humanas.
Ademais, a ode ao consumismo, relacionando-o à felicidade e à qualidade de vida, não é menos do que prejudicial. Nesse sentido, Guy Debord, em sua obra “A Sociedade do Espetáculo”, explana que os indivíduos, dominados pelo sistema capitalista, buscam nos objetos qualidades que almejam para si, como ter um carro potente para demonstrar masculinidade e poder. Dessa maneira, ao associarem determinados estilos de vida unicamente à aquisição de certos produtos, os influenciadores, implicitamente, introjetam na mente dos jovens que o “ter” importa mais do que o “ser”. Como consequência, tem-se uma geração ignorante no que diz respeito às virtudes humanas e à verdadeira felicidade, uma vez que dependem sempre do último lançamento para estarem bem com si mesmos.
Portanto, é necessário que o Poder Legislativo intervenha, por meio da criação de leis que obriguem os perfis a tornarem explícito o patrocínio de suas publicações, quando houver, sob pena de multa, a fim de sinalizar aos jovens em relação às propagandas. Além disso, é fundamental que os próprios influenciadores repensem e ressignifiquem sua influência, aproveitando-se do espaço e alcance que possuem para dar voz a questões de fato relevantes, promovendo reflexões e movimentando pessoas em prol de mudanças positivas, com o intuito de impactar construtivamente os jovens.