O impacto da exposição a telas no desenvolvimento infantil

Enviada em 07/10/2024

Em “Otelo”, obra literária do dramaturgo inglês William Shakespeare, é narrada a história de Otelo, general mouro a serviço do reino de Veneza. Na trama, Iago - alferes veneziano, afirma que as relações humanas, em sua gênese, são dotadas de ações prejudiciais à harmonia coletiva, mecanismo utilizado pelo autor para exaltar o teor retrógrado da sociedade. Paralelamente, o impacto da exposição a telas no desenvolvimento infantil também é um retrocesso para o cenário brasileiro. Nesse ínterim, entende-se a romantização do uso dos dispositvos eletrônicos no cotidiano das crianças e o obscurantismo de informações como causas do obstáculo.

De início, é lícito pontuar o enfraquecimento dos laços familiares em decorrência da exposição de telas a crianças como agente potencializador do entrave. Isso porque, embora o Estatuto da Criança e do Adolescente reconheça a importância dos pais no desenvolvimento infantil, a ilusão presente, em alguns lares brasileiros, de que os recursos tecnológicos podem sanar as carências cotidianas das crianças, além de tercerizar os cuidados necessários para os menores, compromete negativamente as habilidades físicas e intelectuais dos infantis. Sob essa ótica, de acordo com Guy Debord, ensaista francês, em sua lógica acerca da sociedade do espetáculo, o tecido civil, por viver alienado, assiste sua definhação conformado. Dessa maneira, a concepção errônea de que a tecnologia é capaz de suprir as relações humanas aprisiona a criança em um regime avesso à socialização e ao aprimoramento neurológico.

Além disso, a escassez de informações perpetua o gradativo uso desregrado de telas e suas devidas implicações. À luz dessa perspectiva, consoante ao pensamento de Jurgen Habermas, sociólogo alemão, toda ação precede o debate. Neste tocante, a quase inexistência de discurssões sobre o tema alastra os efeitos negativos do uso de telas sob as crianças, haja vista ser irrisório combater algo do qual não se tem conhecimento. Nesse contexto, mazelas em aspecto físico e intelectual permeiam a realidade infantil do corpo social brasileiro, ao passo que tais danos são naturalizados. Desse modo, infelizmente, crianças tendem a desenvolver problemáticas relativas à obesidade, individualização e distúrbios psicológicos (ansiedade e depressão) graças à negligência de informações.