O culto à padronização corporal no Brasil

Enviada em 01/04/2018

No livro “Extraordinário” da escritora americana Raquel Jaramillo, Auggie é um garoto que, em virtude da sua severa deformidade facial, visa convencer os colegas de que ele é um menino igual a todos os outros. Fora da ficção, no entanto, observa-se, no Brasil contemporâneo, que os padrões estéticos corroboram para a manutenção de preconceitos e a inferiorização de uma parcela social.

Mormente, analisa-se que o culto à aparência não é um impasse atual. Sob uma ótica meramente histórica, na civilização egípcia, por exemplo, as mulheres deviam ter cabelos longos e rosto simétrico. Nesse sentido, percebe-se que, consoante a teoria do “Habitus” de Pierre Bordieu, tais modelos foram naturalizados e incorporados ao cotidiano, de forma a serem reproduzidos até o contexto vigente. Por conseguinte, o indivíduo torna-se cada vez mais alienado e aqueles que não seguem esses moldes são excluídos e discriminados. É evidente, então, que, conforme uma pesquisa comissionada pela Dove, mais de 80% das mulheres se sentem pressionadas a atingir um ideal de beleza.

Ademais, nota-se ainda que a mídia atua como catalisador da problemática. Isso porque, de acordo com uma lógica capitalista, o desenvolvimento de padrões corporais garante a geração de lucros ao mercado de estética. Outrossim, perante o cenário tecnológico, a maioria das pessoas se sente obrigada a admitir paradigmas para alcançar status e prestígio nas redes sociais. Com isso, assim como defende Friedrich Nietzsche, constrói-se uma idealização, geralmente inatingível, em que o indivíduo não tem livre-arbítrio. Consequentemente, é comum a obtenção de distúrbios, como a anorexia, e a adoção de medicamentos e práticas cirúrgicas inadequadas.

Urge, portanto, que a aparência tornou-se um fator relevante para o estabelecimento das relações sociais. Destarte, cabe ao Governo, em parceria com o MEC, criar um sistema abrangente de combate aos arquétipos enraizados, por meio do incentivo à leitura de obras as quais abordem tal temática, bem como a implantação de palestras, ministradas por psicólogos e profissionais de educação física e destinadas aos alunos, pais e profissionais da educação; a fim de atenuar intolerâncias. ONGs e instituições sem fins lucrativos, por sua vez, devem fundar ouvidorias online e, por intermédio do Ministério da Saúde,  promover atendimento médico e psicoemocional domiciliar, para assegurar mecanismos assistivos e prevenir problemas de saúde ligados ao tema. Dessa forma, poder-se-á possibilitar a alteridade - estado que se constitui através de elos de contraste - da nação e o objetivo de Auggie será atingido.