O culto à padronização corporal no Brasil

Enviada em 18/10/2017

O clássico literário “O Retrato de Dorian Gray”, escrito por Oscar Wilde no século XIX, narra a história do jovem Gray, referência de beleza para os padrões estéticos da época, que, motivado por sua ambição e por seu ego, utiliza todos os meios para manter eterna sua aparência e sua juventude. Nessa obra, o escritor busca refletir a supervalorização da aparência, já existente naquela época, em detrimento da personalidade do indivíduo. Apesar de ficcional, o livro aborda um dos maiores desafios do século XXI: o culto à padronização corporal, sobretudo estimulado pela mídia, e a necessidade constante de atender às exigências estéticas impostas pelo sociedade.

Segundo o filósofo Guy Debord, a modernidade veio acompanhada do que ele chamou de “sociedade do espetáculo” na qual a imagem tornou-se, além de predominante, um instrumento de poder utilizado nas relações pessoais. Nesse sentido, a mídia tem grande papel na atual questão da padronização corporal, já que ela, em muitos casos, dita conceitos de beleza por meio da supervalorização de determinados padrões estéticos. Essa supervalorização, quase sempre, ocorre mediante a associação de um corpo ideal com a felicidade, prova disso é que, por exemplo, em muitas novelas a personagem bem sucedida, satisfeita e realizada é magra.

Ademais, a idealização do corpo perfeito leva gradativamente mais pessoas a frequentarem academia de maneira excessiva, a aderirem a dietas restritivas que podem comprometer o metabolismo corporal e até mesmo a cirurgias desnecessárias para modificar a aparência. Prova disso é que, segundo a Sociedade Internacional de Cirurgia Plástica, em 2015, cerca de 1,1 milhão de brasileiros se submeteram a cirurgias com fins estéticos, levando o Brasil à vice liderança no ranking de países com que mais realizaram cirurgias plásticas.

É importante, portanto, fomentar o trabalho do Conselho Nacional de Autorregulação Publicitária (CONAR) no que diz respeito a ponderar e estabelecer limites das propagandas midiáticas que cultuem exclusivamente e excessivamente um único padrão de beleza, a afim de minimizar a influência da mídia nos padrões estéticos idealizados pela sociedade e incentivar a diversidade de aparências. Ademais, é necessário que as escolas, partindo do pressuposto que são fortes formadoras de opinião, discutam o tema nas salas, abordando em debates os diferentes padrões de beleza nas diferentes épocas e a pluralidade de biotipos existentes na sociedade, a fim de mitigar a busca desmedida e exacerbada do corpo ideal e desvincular o conceito de beleza do de felicidade.