O culto à padronização corporal no Brasil
Enviada em 06/10/2017
“As feias que me perdoem, mas beleza é fundamental.” O verso do famoso poeta Vinícius de Moraes é capaz de sintetizar muito bem o pensamento hegemônico vigente. A Idade Contemporânea trouxe várias mudanças, dentre elas a construção e o fortalecimento dos padrões estéticos até então adotados majoritariamente pela nobreza aristocrática. Segundo Pierre Bourdieu, sociólogo francês, a linguagem corporal é marcadora da distinção social, assim, há uma crescente preocupação com o corpo, dieta alimentar, cirurgias plástica e consumo excessivo de cosméticos. Assim, é preciso discutir as causas e as consequências de tal padronização.
É de amplo conhecimento que a mídia veicula imagens de corpos perfeitos, em que o ideal de beleza é ser magra e jovem. Assim, o consumo desenfreado é estimulado, pois o sistema capitalista por meio da Indústria Cultural, conceito difundido por Adorno e Horkheimer, implanta a necessidade de comprar as roupas da moda, fazer plásticas e adquirir cosméticos, o que traz a sensação de uma pseudo-felicidade. Ademais, com a explosão tecnológica e o mundo informatizado, houve uma verdadeira mercantilização da imagem, se a pessoa está insatisfeita com o corpo, simplesmente procura um cirurgião e manda “consertar”. Isso explica o aumento exponencial da procura por rinoplastias, lipoaspirações, implantes de silicone e demais cirurgias de reparo corporal. Além disso, muitos procuram clínicas clandestinas em busca de procedimentos estéticos, colocando sua vida em risco em nome de um corpo padrão.
Em decorrência disso, muitas que não tem como alcançar esse padrão passam a recorrer a extremos os distúrbios alimentares. Cada vez mais jovens sofrem com anorexia e bulimia em busca do corpo perfeito, o que acontece frequentemente no mundo da moda. Os jovens são o alvo principal devido à suscetibilidade que apresentam, por estarem começando a socializar. Assim, o sistema oprime os que estão fora do padrão, o que provoca baixa autoestima, depressão, ansiedade e até o suicídio.
Diante dessa problemática, constata-se que é preciso refletir sobre tal representação corporal que é imposta socialmente. O Conselho Nacional de Autorregulamentação Publicitária (CONAR) deve regular propagandas que incitam a adoção de padrões estéticos com maior rigidez, promovendo a divulgação de que beleza é algo cultural e que não existe um padrão perfeito. O Ministério da Educação em parceria com escolas deverá realizar palestras educativas e debater sobre os estigmas corporais minimizando os impactos negativos futuros. O Ministério da Saúde deve fiscalizar as clínicas e punir aqueles que encontram-se em situação clandestina. Quem sabe assim, a sociedade compreenda que a singularidade da beleza está justamente no seu aspecto plural.