O culto à padronização corporal no Brasil
Enviada em 04/10/2017
Conforme a filosofia ética de Aristóteles, o homem deve possuir uma vida equilibrada, distante de quaisquer exageros. Sob essa conjectura, pode-se reconhecer uma problemática no que tange à supervalorização do padrão corporal por parte dos indivíduos, os quais comprometem não só suas singularidades, como também seus estados de saúde. Logo, é indubitável que esta cultura do estereótipo da beleza deva ser desmistificada.
Em primeiro lugar, é necessário salientar as raízes históricas das rotulações corporais na sociedade. Como analisou Friedrich Hegel, a história é dinâmica e as verdades a acompanham. Ao seguir essa linha de pensamento, pode-se reconhecer uma dinamicidade das mudanças de arquétipos de beleza ao longo das décadas - retratados, por exemplo, pela idealização da Marilyn Monroe nos anos 40. Neste contexto, a padronização hodierna foi incorporada pelos indivíduos de diversas maneiras, sobretudo pelas influências midiáticas, o que acarretou uma cadeia de problemáticas sociais - como se reflete nas práticas de bullying e de violência contra pessoas fora de tal padrão corporal e na inaceitabilidade de outros paradigmas estéticos, ocasionando, dessa forma, um questionamento à diversidade e uma dificuldade de exercer o direito à liberdade de expressão previsto pela Constituição.
Ademais, deve-se pontuar as consequências da cultura da padronização corporal para a saúde pública. Em um viés psicológico, visualiza-se inúmeras perturbações para o indivíduo - ora pela pressão coercitiva da sociedade contra modelos fora do estereótipo, ora pelo desencadeamento de doenças graves como a anorexia, a bulimia e a vigorexia. Somados à isso, pode-se destacar também as execuções de cirurgias invasivas e o uso de substâncias fortes sendo práticas que comprometem a homeostase do organismo - como ocorreu com a modelo Andressa Urach, em 2015, quando quase perdeu a vida utilizando um forte produto estético. Portanto, crescem as inovações estéticas em paralelo às complicações para o estado de saúde e social dos indivíduos.
Mediante ao exposto, tornam-se prementes intervenções para reverter essa questão da sociedade. Para tal fim, o Ministério da Educação, aliado aos institutos educacionais, deve adotar o modelo de “escola cidadã” - proposta por Paulo Freire -, abrindo discussões nas aulas de Sociologia e realizando palestras sobre a valorização da pluralidade de arquétipos de beleza, no intuito de desmistificar padronizações e legitimar dissensos. Outrossim, as emissoras de televisão devem enaltecer a importância da criticidade corpórea, retratando em telenovelas em papéis protagonistas e realizando programas de debate sobre essa questão, para cumprir com sua função social e configurar maior autonomia dos indivíduos diante às suas escolhas estéticas pessoais.