O culto à padronização corporal no Brasil

Enviada em 23/09/2017

Do passado farto ao presente magro

Em uma das principais obras do artista Giorgine, no Renascimento italiano, “Vénus adormecida”, retrata-se não só uma mulher adormecida mas também uma senhora com um corpo farto, símbolo de riqueza neste período. Tal simbologia corporal, por exemplo, transmitiu-se desde as obras do século XIV até o atual momento. Porém, distinguiu-se com o tempo. Em detrimento aos corpos renascentistas, hoje em dia, o padrão difundido é o completo oposto, valorizando a magreza excessiva. Com isso, as mulheres atuais visam atingir esta nova padronização, o qual preza um novo modelo - magro - e culmina na propagação de diversas doenças mentais, como a anorexia, por exemplo.

Este critério contemporâneo da forma e do contorno de uma mulher ideal é, em essência, uma política de intolerância. No mito de Procusto, por exemplo, explora-se essa relação. Procusto, um gigante vivendo nas estradas gregas convida viajantes para descansarem em sua casa. O visitante ao dormir em uma cama preparada a partir de um molde, um modelo, um padrão estabelecido pelo personagem possui suas pernas amputadas a fim de tornar possível o formato propagado por Procusto. Tal mito ainda é válido nos dias atuais, devido a normas estabelecidas pela moda, pela mídia, etc. Nestas, impõe-se a mulheres um corpo magro e ignora-se não só as limitações de cada uma mas também a forma como estas conseguirão atingir este ideal.

A busca por esse “protótipo” perfeito, de forma consequente, provoca situações perigosas às mulheres. Em 2016, por exemplo, o caso de Délleny Mourão foi divulgado pelas mídias sociais. Neste, ela criticava a demanda constante por medidas nas agências de modelos no Brasil. Délleny denunciou o uso de laxantes e de jejuns constantes entre as meninas neste “submundo” da moda. Tudo com o intuito e a premissa de atingir um corpo ideal. Tal denúncia pode ser generalizada não só no caso de modelos mas também de mulheres em geral. A padronização inicia-se nas primeiras, as quais definem o ideal, porém atingem e são destinadas às segundas, sempre preocupadas em atingir os valores, então, estabelecidos, em detrimento de sua saúde pessoal.

No Brasil atual, então, nota-se uma constante valorização de um padrão corporal às mulheres. Estas, na busca de atingi-lo, realizam ações, muitas vezes, radicais, como utilizar-se de laxantes, no intuito de emagrecer. A fim de solucionar esta problemática poderia ser criado pelo Governo Federal uma campanha midiática, chamada “Cada mulher, um corpo”, onde diversas mulheres definem o seu corpo e as suas medidas, com o intuito de propagar não só um padrão, mas sim diversos modelos, nos quais cada uma certamente se sentiria integrada.