O culto à padronização corporal no Brasil
Enviada em 21/09/2017
Pela recuperação da lucidez
José Saramago, escritor português, em sua célebre obra “Ensaio Sobre a Cegueira”, convida seus leitores a uma reflexão particular sobre a essência do ser humano. De maneira análoga, o culto à padronização corporal, no Brasil, em detrimento da saúde do organismo provoca questionamentos a respeito da lucidez humana quanto a sua integridade física e mental. Nesse contexto, para entender tal comportamento é necessário um olhar mais amplo para seus aspectos sociais e antropológicos determinantes.
O sobrepeso já foi visto como uma vantagem evolutiva, no entanto, atualmente é visto como sinal de descuido e relaxo. No período renascentista, por sua vez, a mulher foi idealizada com mais curvas e mais massa corporal do que é idealizada atualmente. Diante disso, observa-se que padrões corporais sempre existiram, contudo, o problema maior de tudo isso está no fato de que o organismo humano é arcaico, isto é, suas necessidades fisiológicas não acompanham as mutações dos gostos estéticos. Por isso, a questão de se alinhar saúde e beleza é tão importante, o exagero de exercícios físicos ou uma dieta desequilibrada pode trazer consequências terríveis ao corpo humano, como lesões e sobrecargas de órgãos vitais, com destaque ao fígado e ao rim.
Ademais, segundo a visão positivista de Durkhein, a sociedade é exterior e coercitiva ao indivíduo, ou seja, impões valores e padrões sociais. Nessa lógica, a mentalidade social é construída a partir de visões gerais de um grupo, o que, na perspectiva capitalista, potencializa a força da publicidade e da mídia como estabelecedores de paradigmas coletivos. Dessa forma, alinhado à autovalorização do indivíduo pós-moderno, apontado pelo historiador Leandro Karnal como o “culto do eu”, a sociedade brasileira ultrapassa cada vez mais as barreiras da saúde em busca de um corpo perfeito. Desta feita, é urgente uma intervenção institucional na questão.
Convém, portanto, que o Ministério da Educação, em um primeiro momento, leve informação e consci-ência aos jovens, para que, por meio de de palestras nas escolas públicas com profissionais da saúde, construa-se uma juventude cônscia sobre a questão. Somado a isso, é papel social da mídia, ao difundir padrões estéticos, apresentar também os limites da busca do corpo perfeito e da autovalorização, o que, por intermédio de reportagens e documentários que abordem situações reais sobre pessoas que sofreram problemas de saúde ao ultrapassar esses limites, diminuirá a adoção de dietas e exercícios radicais pela população em geral. Realizada essas ações, acredita-se na recuperação gradual da lucidez perdida por parte da sociedade.