O culto à padronização corporal no Brasil

Enviada em 17/09/2017

Espelho, espelho meu

“O alferes eliminou o homem”: assim fora descrita a evidência social conferida a Jacobina, que a partir de seu fardamento passou a ser visto pela sociedade como modelo a ser seguido no conto “O Espelho”, de Machado de Assis. Nesse sentido, é inquestionável que o culto à padronização corporal e à beleza no Brasil revela que a nossa sociedade apresenta o vício de julgamento de caráter pela aparência, seja pela roupa, seja pelos músculos.

Por esse viés, é indubitável que a beleza se tornou um pré-requisito para a aceitação social. Sendo assim, é irracional não aplicarmos o Darwinismo à sociedade, já que a necessidade de adaptação ao meio em que vivemos produziu uma uniformidade comportamental sem precedentes, sendo que indivíduos que não seguem um padrão imposto pelo consumismo, seja pela ostentação de roupas, seja pela de músculos, acabam sendo vítimas de preconceitos e são afastados do “bando”. E o final dessa história nós já sabemos: tudo é válido para termos a beleza que a sociedade espera que tenhamos, inclusive a nossa própria infelicidade.

Além disso, é nítido que as aparências passaram a refletir nosso suposto caráter. No que tange ao assunto, Machado de Assis tornou o protagonista de “O Espelho” um exemplo marcante do quanto a aparência é capaz de ofuscar a nossa essência: de Jacobina para “o Sr.Alferes”; do anonimato social para a badalação; da indiferença para um modelo a ser seguido e respeitado. Afinal, será mesmo que a sociedade evoluiu comportamentalmente no último século a ponto de termos a certeza de que a nossa aparência não influencia majoritariamente as nossas relações sociais, ao invés do nosso caráter?

Assim, é indubitável que o culto à beleza e à padronização corporal no Brasil revela que a nossa sociedade tem a pré-disposição a dar à aparência o crédito da nossa personalidade e do nosso caráter. Nesse sentido, deve haver uma união de forças entre a grande imprensa e o Ministério da Saúde na divulgação de campanhas publicitárias em âmbito nacional que informem sobre os malefícios que doenças como anorexia, bulimia e vigorexia, trazem para os seus portadores; doenças que são muito presentes em uma sociedade que faz do culto ao corpo uma obsessão. Com esse tipo de informação, cabe ao próprio indivíduo a capacidade para entender que a força do verbo aparentar não é maior do que a do verbo ser, quando se trata do que as pessoas ao nosso redor esperam que sejamos. Afinal, não é pelo espelho que enxergamos aquilo que realmente somos.