O culto à padronização corporal no Brasil

Enviada em 02/09/2017

O corpo humano e Platão

O individualismo e o isolamento trazidos pela comodidade tecnológica afastou as pessoas da comunicação verbal, do contato e do olhar recíproco, fazendo com que esses indivíduos apreciem e conheçam o mundo através de uma tela de celular ou de computador. É a Alegoria da Caverna de Platão nos dias atuais.

O aumento cada vez crescente da preocupação e valorização do corpo humano como ideal de beleza tem como base a mudança do paradigma do padrão de beleza corporal no país, reflexo principalmente das relações humanas superficiais e desprovidas de maior envolvimento afetivo e cognitivo que acaba gerando diversas outras moléstias como a depressão e os transtornos alimentares. Essa alteração de padrões é a consequência de um mundo em que a mudança é o único fator constante dentro de várias incertezas. Não há mais tempo para o auto-conhecimento, a valorização do indivíduo pelos seus conhecimentos e valores morais e éticos, que demandam maior tempo de convivência. A beleza física por outro lado é imediata e demanda muito pouco esforço mental para ser apreciada, fazendo com que atualmente ela seja sinônimo de ascensão social e popularidade. Troca-se portanto a valorização do ser pelo parecer.

A própria sociedade pode ajudar a mitigar essa supervalorização do corpo através de ações sociais, patrocinadas ou não pelo Poder Público. Por exemplo, há restaurantes que oferecem promoções para grupos e casais que se abstenham de utilizar qualquer aparelho eletrônico enquanto estiverem no local. Outro exemplo: campanha de publicidade de produtos de higiene apresentando modelos com corpos fora do padrão típico. Incentivar o uso consciente dos apetrechos eletrônicos desempenha papel fundamental para restabelecimento das relações sólidas, como diria Zygmunt Bauman, retirando dos holofotes o físico ideal para que as ideias e o caráter do indivíduo ganhem maior relevância, apresentando aos habitantes da Caverna algo além da sombra que se admira.