O culto à padronização corporal no Brasil

Enviada em 03/08/2021

A música “Pretty Hurts” — beleza fere —, da cantora Beyoncé, evidencia a gravidade de tentar, a todo custo, entrar nos padrões de beleza. De maneira análoga, muita gente se encontra nesse paradigma ao glorificar a estética em detrimento da própria saúde. Nesse sentido, por razões culturais e por uma educação deficitária, emerge um grave problema: o culto à padronização corporal no Brasil.

Diante desse cenário, é importante salientar que a cultura é uma forte razão à busca pelo corpo perfeito. À vista disso, na Antiguidade, a estrutura física tida como bonita era aquela que tinham curvas, carnes e uma forma mais natural. Sob essa ótica, atualmente, a mulher que possui essas características está fora do modelo tido como belo — barriga tanquinho, coxas e glúteos torneados —, o que, diversas vezes, origina-se uma busca incessável, por meio de dietas e exercícios, para se obter essas formas. No entanto, apesar da alimentação saudável e da prática de atividades físicas serem algo bastante recomendo pelos profissionais da saúde, tudo o que for excessivo pode trazer prejuízos, pois, segundo a psicóloga Marina Oliveira, anorexia, bulimia e vigorexia são os principais transtornos gerados por esse contexto. Logo, é necessário que, sem excluir a beleza do corpo malhado, as curvas voltem a ser tidas como belas também para que, assim, todos possam se sentir confortáveis e felizes.

Ademais, vale destacar que um sistema de ensino que não seja voltado à liberdade é outro grave motivo para a perpetuação de uma padronização tóxica. Nesse viés, consoante Immanuel Kant, o homem tem seu intelecto formado de acordo com o que lhe é ensinado. Sob esse ângulo, se há um obstáculo social, há uma lacuna educacional. Sendo assim, no que tange a uma forma corporal que deve ser obtida de todo modo, nota-se que a escola não cumpre o seu papel no sentido de prevenir e reverter os impasses coletivos, uma vez que nunca abordou — e ainda não aborda — o quão grave pode ser o resultado dessa situação calamitosa, como o surgimento de doenças psíquicas. Assim, um possível caminho para desconstruir os padrões de beleza é usar o raciocínio de Kant: evoluir o indivíduo intelectualmente a partir de um ensino libertador, que o torne apreciador de todos os tipos de beleza.

Infere-se, portanto, que a mídia, a qual tem papel fundamental na organização, legitimação e curadoria das informações, deve criar eventos virtuais, mediante as redes sociais, como o YouTube, que traga visibilidade àqueles que são considerados acima do peso, a fim de promover a inclusão. Por sua vez, o Ministério da Educação, enquanto regulador das práticas de ensino do país, deve criar um projeto pedagógico, por intermédio da adição de uma nova matéria na grade escolar, que mostre os principais empecilhos da contemporaneidade, por exemplo, a toxicidade dos padrões de beleza. Diante do pressuposto, tal proposta terá a finalidade de frear os possíveis ferimentos pela busca do corpo ideal.