O culto à padronização corporal no Brasil

Enviada em 10/11/2020

Na canção “Garota de Ipanema”, Tom Jobin sobredoura a figura de uma mulher, falando, mormente, de sua beleza, a fim de a idealizar. Conquanto faça parte do arcabouço cultural brasileiro, a música esconde raízes de um notório problema do século XXI: a padronização corporal. Destarte, aponta-se o uso das redes sociais como pontapé à problemática, o qual incita uma sociedade infeliz.

Primeiramente, afirma-se que as dinâmicas sociodigitais contemporâneas induzem ao culto de perfis definidos sobre o que é belo. Isso porque, por meio da exposição - potencialmente enganosa - de corpos normalmente magros e fortes na internet, demais indivíduos se sentem no ímpeto de perseguir tais corpos, de modo a, atavicamente, oferecer riscos à  própria saúde. Evidência disso é o filme “Sierra Burgess é uma loser”, da Netflix, no qual uma garota, por não seguir os padrões cultivados de beleza da sociedade, encontra-se em inúmeros entraves sociais.

Por conseguinte, enquanto esse paradigma perdurar, os indivíduos constroem um ambiente triste no que concerne às interações sociais. Para depreender melhor, vale evocar o curta-metragem “Felicidade”, de Steven Cutts, no qual o rato protagonista, em uma sociedade análoga à humana atual, busca felicidade nos conceitos idealizados - como carros caros, roupas e bebidas famosas -, porém, ele encontra apenas melancolia para si. Fora da ficção, com a permanência da padronização corporal na cultura do Brasil, a sociedade se assimilará à de Cutts: pessoas tristes por, caso perseguirem os padrões, não encontrarem validação pessoal em tal ação.

Portanto, vistas a intempestividade do problema, é notória a urgência em alterar essa conjuntura. Para tanto, compete às famílias o dever de, por meio da educação familiar, instruir acerca dos perigos da manipulação cultural das redes sociais, senão coibir a ingressão precoce nas dinâmicas digitais das crianças, a fim de construir uma sociedade menos alienada aos paradigmas de beleza e, consequentemente, menos infeliz. Dessarte, observar-se-á uma sociedade menos relacionada à idealização, por exemplo, de Jobin, e mais erudita no que concerne ao discernimento de beleza pessoal.