O culto à padronização corporal no Brasil
Enviada em 25/10/2020
Narciso, segundo a mitologia grega, foi uma personagem que sucumbira em um lago devido à atração por sua própria imagem. Para além do mito, entretanto, a corrida pelo alcance do padrão de beleza atual tem se tornado um grave problema à medida em que é potencializado pela hiperexposição digital e pela sociedade de consumo. Desse modo, o culto à aparência tem reverberado em consequências psicológicas e sociais que, em último caso, determinam a estigmatização e o risco à vida humana.
Em primeiro lugar, vale salientar que a sociedade contemporânea aliou, de maneira inédita, o padrão de beleza ao consumo como uma condição “sine qua non” para o alcance da felicidade. Ademais, Marx discorreu sobre esses fenômenos por meio do que chamou de “fetiche da mercadoria”, ou seja, um meio para a manutenção de status. No entanto, o problema não reside na busca, mas sim na obrigatoriedade desse padrão, sob o risco iminente do estigma, que desemboca em consequências perversas, como dificuldade em relacionamentos, isolamento social ou mesmo disparidade em entrevistas de emprego, por exemplo. Indubitavelmente, o mundo julga, mede e exclui pela aparência.
Por outro lado, a hiperexposição nas mídias digitais potencializa uma pressão estética, quase utópica, que alimenta o mito narcisista na atualidade. Dessa forma, o Brasil se põe como o primeiro lugar do mundo em realização de cirurgias estéticas em jovens, conforme os dados do Conselho Federal de Medicina. Contudo, a busca desenfreada por dietas milagrosas, botox, harmonizações, implantes de silicone tem levado as pessoas a se arriscarem, como no caso recente da morte de uma bancária que se submeteu a um procedimento com o “dr. Bumbum”, em Brasília, noticiado pelo Portal G1 e infelizmente fato recorrente. A corrida pelo belo pode ter um preço muito alto.
Depreende-se, em vista disso, que medidas precisam ser tomadas para a resolução dessa problemática. Nesse viés, as diferentes mídias – digitais, cinema e televisão, palco formador de tendências – devem fazer campanhas por meio da propaganda, produção de filmes e obras com intuito de valorizar e difundir outras formas de belezas, de forma a ampliar a conscientização e diminuir os riscos de agravos. Essa iniciativa tem por finalidade desconstruir o empedernido espírito de beleza guiado pelo consumo, evitando-se cair no conto de Narciso, ao promover diversidade e, sobretudo, aceitação social.