O culto à padronização corporal no Brasil
Enviada em 22/10/2020
Narciso, segundo a mitologia grega, foi uma personagem que sucumbira em um lago devido à atração por sua própria imagem. Para além do mito, entretanto, a corrida pelo alcance do padrão de beleza vigente tem se tornado um grave problema na contemporaneidade, potencializado pela hiperexposição digital e pela sociedade de consumo. Desse modo, o culto à aparência tem reverberado em consequências psicológicas, sociais e de saúde, que em último caso, determinam a estigmatização e o risco à vida humana.
Em primeiro lugar, vale salientar, que a sociedade atual aliou, de maneira inédita, o padrão de beleza ao consumo como uma condição “sine qua non” para o alcance da felicidade. Ademais, Marx discorreu sobre esses fenômenos por meio do que chamou de “fetiche da mercadoria”, ou seja, um meio para a manutenção de status. No entanto, o problema reside na obrigatoriedade desse padrão, sob o risco iminente do estigma, que desemboca em consequências perversas, como dificuldade em relacionamentos, isolamento social ou mesmo disparidade em entrevistas de emprego, por exemplo. Indubitavelmente, o mundo exclui, julga e mede pela aparência.
Por outro lado, a hiperexposição às mídias digitais exerce uma pressão estética, quase utópica, pela beleza. De forma geral, palavras como lipoescultura, harmonização facial, implantes de silicone explicam, por exemplo, a condição atípica do número exorbitante de cirurgias estéticas realizadas no Brasil, segundo lugar no mundo, de acordo com dados da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica. Portanto, tal fenômeno determina risco à vida pela grande demanda por serviços clandestinos, consequências da desenfreada corrida narcísica que se desenvolve.
Depreende-se, em vista disso, que medidas precisam ser tomadas para a resolução dessa problemática. Nesse viés, as diferentes mídias – digitais, cinema e televisão, palco formador de tendências – devem fazer campanhas por meio da propaganda, produção de filmes e obras com intuito de valorizar e difundir outras formas de belezas, de forma a ampliar a conscientização e diminuir os riscos de agravos. Essa iniciativa tem por finalidade desconstruir o empedernido espírito de beleza guiado pelo consumo, evitando-se cair no conto de Narciso, ao promover diversidade e ampla aceitação social.