O culto à padronização corporal no Brasil
Enviada em 05/06/2019
A história contemporânea nos conta que entre os anos de 1925 e 1945 Adolf Hitler pôs o seu mais ambicioso plano em prática: a criação da Juventude Hitlerista, cujas atividades estavam relacionadas a idealização de uma raça perfeita. Uma de suas vertentes, denominada “Sociedade, Fé e Beleza”, recrutava compulsoriamente adolescentes do sexo feminino com idades entre 17 e 22 anos com a intenção de separar as detentoras de uma beleza considerada “ariana”, estudar seu patrimônio genético e, no futuro, usá-los na construção de uma sociedade alemã onde as mulheres seriam fisicamente perfeitas. Passadas algumas décadas do apogeu nazifascista, percebe-se que a supervalorização da beleza física deixou de ser um programa governamental e tornou-se um problema social e de saúde pública. No Brasil, os principais imbróglios relacionados a essa perniciosa questão são a supervalorização do belo em detrimento de outras características e a “demonização” do corpo gordo, associado a tentativa de criação, por parte da sociedade, de um padrão ideal de peso corpóreo.
Inicialmente, em sua obra literária “Ensaio sobre a Cegueira”, José Saramargo descreve uma sociedade que, paulatinamente, passa a desenvolver uma cegueira moral. Paralelo as metáforas do escritor português, percebe-se que tal cegueira chega aos dias atuais na forma de inversão de valores: passa-se a desejar exacerbadamente o “belo” e isso torna-se mais importante do que zelar por uma boa saúde. Como consequência, há o recrudescimento de procedimentos estéticos, uma vez que, de acordo com a Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica (SBCP), o Brasil ocupa o segundo lugar no ranking dos países que mais realizam esse tipo de cirurgia no mundo, perdendo apenas para os Estados Unidos. Observa-se, pois, a necessidade de mudança a curto prazo no pensamento social, caso contrário, apenas alimentaremos a tese proposta por Saramargo: sermos feitos metade indiferença e a outra metade “ruindade”.
Somado a isso, há um expressiva parcela que se restringe a “anormalizar” o corpo que não segue um padrão “magrocentrado”. Então, inicia-se o imaginário de que o corpo não magro é um transgressor e, portanto, deve ser combatido: qualquer conversa que o envolva é pautada no emagrecimento a qualquer custo. Tentativas de categorizar as pessoas entre normais e anormais estão relacionadas a eugenia (teoria que tenta produzir uma seleção nas coletividades humanas baseada nas leis genéticas) e já serviu como justificativa para genocídios, como o holocausto. De acordo com a teoria de banalização do mal proposta pela socióloga Hannah Arendt, quando um comportamento agressivo passa a ocorrer com frequência, as pessoas param de vê-lo como errado, enfatizando assim, a importância de uma mudança.
Portanto, são necessárias medidas que atenuem o culto a padronização cultural no Brasil. destarte, com a finalidade de dar liberdade a escolha corporal ao indivíduo, é mister que o Conselho Nacional de Autorregulamentação Publicitária (CONAR) regule propagandas que incitem a adoção de padrões estéticos com maior rigidez, promovendo a aceitação e o respeito a diversidade de aparências. O Governo Federal, juntamente com o Ministério da Educação e Cultura (MEC) aliados as redes de escolas públicas e privadas devem realizar palestras que abordem os problemas e os perigos causados pela busca excessiva da beleza, ministradas por profissionais da saúde e com linguagens acessível aos jovens. As ações supracitadas dar-se-ão com a ajuda de todos, promovendo uma sociedade mais justa, saudável e igualitária.