O culto à padronização corporal no Brasil

Enviada em 30/03/2019

Padrões de beleza e a instituição de corpos “ideais” fazem parte da sociedade desde seus primórdios, sendo notória as transformações da valorização corporal ao longo da história. Porém, apesar da ideologia atual de corpo perfeito (magro e musculoso), advinda dos gregos e romanos da Antiguidade Ocidental, influenciar ambos os sexos, as mulheres são as mais afetadas pela padronização. No Brasil, país conhecido por ter as mulheres mais bonitas do mundo e por exportar beldades como as topmodels Gisele Bündchen e Adriana Lima, a busca pelo corpo perfeito se torna doentia e prejudicial.

O parâmetro feminino brasileiro atualmente instaurado é machista, racista e classista, tornando-se quase inatingível, devido, entre outros fatores, à supervalorização de características genéticas, tais como altura e cor da pele. Ademais, o enaltecimento do corpo ideal em passarelas, capas de revistas, filmes e propagandas contribui para o aumento da insatisfação com o próprio corpo de diversas mulheres, além de estimular a baixa autoestima. Assim, a mídia e a indústria da beleza  não só exercem grande influência sobre a padronização corporal, como também aproveitam a insatisfação e o desejo de mudanças para vender produtos e serviços, estimulando o consumismo.

Outrossim, a luta constante pela suposta aparência perfeita desencadeia uma série de consequências internas e externas, principalmente nas jovens, que são mais inseguras e buscam pela aceitação social a qualquer custo. Distúrbios alimentares, como anorexia e bulimia, acontecem com frequência na tentativa de perder peso e diminuir o tamanho do vestuário, acarretando diversos problemas como desnutrição, osteoporose precoce e pressão baixa. Há ainda uma intensa procura por cirurgias plásticas e intervenções estéticas, às quais inúmeras mulheres se submetem diariamente para conquistar o corpo dos sonhos, e que muitas vezes são de alto risco, ou até mesmo feitas por profissionais não capacitados, ocasionando repetidas mortes. A banalização de processos cirúrgicos, o pagamento facilitado e ditadura da beleza são os principais fatores que levam o Brasil a ocupar o segundo lugar no ranking mundial de cirurgias plásticas, ficando atrás apenas dos Estados Unidos.

Evidencia-se, portanto, que a padronização corporal e a concepção de beleza impostas, sobretudo às mulheres, causa danos emocionais, psicológicos e físicos, podendo alguns ser irreversíveis. Diante disso, faz-se necessário a criação de mais debates na mídia e nas escolas sobre o assunto, acerca de promover a autoaceitação e a derrubada de padrões. Também é imprescindível a disponibilização de psicólogos, nutricionistas e médicos em clínicas públicas, a fim de assistir e informar pessoas com transtornos alimentares ou que buscam cirurgias e intervenções estéticas sem a real necessidade.