Maternidade compulsória em debate no Brasil
Enviada em 02/09/2021
Cristina Yang, personagem da série Grey’s Anatomy, é fortemente julgada por abdicar de sua maternidade e preferir focar em sua carreira como médica, ao realizar um aborto. Nesse sentido, a narrativa revela que atualmente mulheres ainda são julgadas por não aderirem a oportunidade de se tornar mãe, reflexo de uma mentalidade social retrógrada, estruturada com valores patriarcais. Fora da ficção, fica claro que a realidade na série pode ser relacionada àquela no século XXI: onde a maternidade é posta como obrigação as mulheres e é tida como sinônimo de sucesso. Portanto, faz-se imperiosa a análise que dos fatores que favorecem esse quadro.
Em primeiro lugar, faz-se necessário destacar que, hodiernamente, pouco se discute acerca do direito de escolha individual do corpo feminino e como isso infere na sua liberdade. Segundo a filósofa Simone de Beauvoir ‘’O mais escandaloso dos escândalos é que nos habituamos a eles’’, tal ideia que pode ser associada ao fato de que, em uma esfera onde ações possuem efeitos coletivos, pouco se é debatido sobre como o julgamento a respeito da opção de não coerir à escolha de tornar-se mãe, fere, mesmo que indiretamente, um direito constitucional comum a todo ser – a liberdade - , uma vez que, criar e educar uma criança exige esforço e dedicação - tanto física quanto mental - de um sujeito e, por isso, deve ser uma opção, não uma obrigação moral.
Paralelamente, é fundamental apontar a associação da gravidez à sinônimo de sucesso como impulsionador do problema. Esse fenômeno é tratado na obra ‘’Razão e Sensibilidade’’, de Jane Austen, quando John Dashwood tenta persuadir sua irmã, Elinor, a casar-se com um certo homem bem sucedido a fim de ascender socialmente através da construção familiar. Diante do tal exposto, é nítido que a romantização da gravidez é proveniente de uma sociedade construída sob valores culturais machistas onde, a ideia de ‘’vocação maternal’’ ainda é presente, tornando a alternativa de uma vida focada na própria carreira como algo impróprio à uma mulher. Logo, é inadmissível que esse cenário continue a perdurar.
Depreende-se, portanto, a urgência de se combater esses obstáculos. Para isso, é imprescindível que o Ministério dos Direitos Humanos, por intermédio de investimentos financeiros, promova debates e palestras – ministrados por acadêmicos e estudantes da área de psicologia e sociologia – com o objetivo de conscientizar a população a respeito do poder individual, referente a todo cidadão, sobre o próprio corpo. Somente assim, será possível construir uma sociedade favorável, onde o julgamento coletivo não será presente, como retratado com a personagem Cristina Yang.