Linchamentos virtuais: o que motiva os atos e a gravidade desse comportamento na sociedade atual
Enviada em 19/10/2020
Linchamentos eram frequentes até o século XV d.C. Bruxas sendo queimadas vivas em troncos e homens perdendo a cabeça eram situações bastante comuns de se presenciar em praças públicas da Idade Média. E, apesar de muito tempo ter se passado, essa prática medieval ainda persiste na contemporaneidade, porém adaptada aos padrões tecnológicos hodiernos, com a utilização da internet. Todavia, uma coisa se manteve inalterada em seis séculos: a ignorância, que continua sendo uma das principais causas da perpetuação dessa forma de violência.
Sabe-se que o fator motivador do linchamento virtual, sobretudo no Brasil, é a ignorância quanto às leis vigentes no país. Isso porque, por desconhecimento das consequências penais, agressores praticam essa modalidade de opressão por acreditarem estar invulneráveis por trás de seus monitores e teclados, o que, por sua vez, acaba encorajando a manutenção dessa atitude desumana em solo nacional. Entretanto, o Código Penal define crimes, tais como a injúria e a difamação que englobam condutas tipicamente praticadas por quem xinga e denigre a imagem de outrem na internet. Dessa forma, caso fosse sabido a possibilidade de enquadramento criminal, dificilmente essa violência verbal perpetuaria em âmbito brasileiro.
Ademais, deve-se ressaltar a gravidade que essa atitude em conjunto pode representar para a vida de suas vítimas. A esse respeito, é válido destacar que o linchamento virtual pode ser concebido como uma espécie de bullying potencializado, uma vez que ele não visa, tão somente, evidenciar uma característica, geralmente física, destoante dos paradigmas sociais preestabelecidos, mas sim, rebaixar um ser humano, tolhendo-o de sua dignidade, ao personificá-lo como um problema social. Nesse viés, segundo o doutor em psicologia pela Universidade de São Paulo (USP), Leonardo Goldenberg, é como se a vítima simbolizasse todo o mal a ser combatido por um grupo de indivíduos que se julgam justiceiros. Nesse sentido, se se considerar que o bullying já pode trazer transtornos psicossociais para quem sofre com esse tipo de agressão, é de se esperar que os efeitos para as vítimas do linchamento podem ser ainda mais severos, haja vista seu maior grau ofensivo.
Destarte, fica claro o motivo do linchamento virtual e como essa mazela pode representar sérios danos para a saúde mental. Diante disso, urge que o Ministério da Justiça conscientize a população acerca das consequências penais que palavras podem significar em meio virtual, no sentido de corroborar que a internet não é livre de jurisdição. Outrossim, vale dizer que o plano de ação seria executado por meio de campanhas difundidas em redes sociais e em plataformas de streaming de vídeos, visando, desse modo, o desencorajamento dessa prática covarde e, por conseguinte, a preservação da saúde alheia.