Limites entre estética e saúde

Enviada em 02/01/2021

A novela brasileira “Totalmente Demais” retrata a história da personagem Dorinha, que foi internada mediante abuso no uso de cirurgias pláticas, devido a um padrão estético disseminado pelas agências de modelo. Para além da ficção, outrossim, os padrões de beleza impostos socialmente no Brasil do século corrente, ultrapassam os limites da estética, comprometendo drasticamente a saúde dos brasileiros, sobretudo de mulheres. Nesse sentido, a lógica da beleza nociva se perpetua devido a influência da industria cultural, apoiada nos interesses das grandes empresas que obtêm nesses procedimentos seus lucros.

Diante de tal problemática, a ascenção da industria cultural (sobretudo através das mídias sociais), no que diz respeito a formação do imaginário popular, se dá como um dos maiores contribuintes para o comprometimento da saúde mediante o uso de procedimentos estéticos. Isso acontece devido à veiculação de corpos ditos como “ideais”, ocupando papeis de destaque e prestígio no cenário midiático. Assim, os telespectadores enxergam tais padrões como moldes de sucesso a serem atingidos, acarretando na procura por cirurgias práticas, muitas vezes de maneira irresponsável e desenfreada. Por conseguinte, cria-se uma lógica de manipulação apontada pelo sociológo Herbet Marcuse como uma estratégia de criação de falsas necessidades que aumentem o consumo.

Destarte, a manipulação midiática não é combatida efetivamente, uma vez que empresas, influentes no campo cultural, consolidam seu sucesso justamente por meio da lógica de procura por cirurgias plásticas e procedimentos estéticos. Logo, é interessante para as companhias a disseminação de propagandas que exaltem corpos ditos “perfeitos”, atreladas a produtos que prometem fornecer tal perfeição. Dessa forma, obtém-se um aumento nas vendas e no lucro daqueles que investem no setor da beleza, mesmo que este surja a partir do comprometimento físico e psicológico dos consumidores, transformando sujeitos em mercadorias, como afirma o intelectual Zygmunt Bauman.

Urge, portanto, a necessidade de que o Ministério das Comunicações, em parceria com o Ministério da sáude, alerte a população do perigo na aplicação de produtos e no uso cirurgias pláticas de maneira banalizada (destacando os riscos físicos e psíquicos destas), por meio de propagandas a serem vinculadas no rádio e na tv aberta. Ademais, cabe à Secretaria Federal de Cultura incentivar, por meio do apoio financeiro, produções cinematográficas e televisivas que exaltem a diversidade de corpos, a fim de desconstruir os padrões de beleza. Dessa forma, o imaginário popular será alterado e a consciência dos perigos vindos da pressão estética será disseminada, promovendo um cuidado com a saúde pública, e evitando que muitos brasileiros tenham o mesmo destino que a personagem Dorinha.