Gravidez na adolescência em evidência no Brasil
Enviada em 30/03/2020
O Brasil atual é herança dos aspectos socioeconômicos e culturais da “sociedade do açúcar” colonial, marcada pelo elitismo, pela religiosidade e, sobretudo, pelo patriarcalismo e desigualdades sociais. De fato, esses fatores dificultam o desenvolvimento do país e o enfrentamento de problemas e tabus como, por exemplo, a sexualidade e a gravidez na adolescência.
É imprescindível, a priori, ressaltar que o legado deixado pelo modelo de família patriarcal e religiosa, no qual existia pouco diálogo entre pais e filhos, tem sido um entrave nas relações atuais, ante a crescente liberdade sexual. Dessa forma, diante da adesão precoce da juventude a vida sexual, influenciados pelo fácil acesso a pornografia, festas e drogas, surge a necessidade de reflexão sobre o papel da família, escola e poder público em busca de soluções que respeitem as liberdades individuais e que contornem o patriarcalismo. De fato, a conjuntura é desafiadora, tanto que, de forma equivocada, a ministra da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos, Damares, lançou uma campanha, “tudo tem seu tempo” que, ao defender a abstinência sexual, na tentativa de evitar a gravidez precoce, ela deixa de levar em conta fatores socioculturais, educação e as desigualdades sociais de cada região.
Vale acrescentar, também, que a desigualdade social agrava esse quadro, pois as famílias mais carentes não têm acesso a uma boa escola e projetos de prevenção na área da saúde, nas quais possam orientar pais e filhos dos efeitos da gravidez precoce. De fato, segundo Emmanuel Kant “O ser humano é aquilo que a educação faz dele”, assim, a conscientização por meio de postos de saúde, psicólogos, palestras, somados com projetos comunitários de educação preventiva dentro e fora das escolas, são fundamentais. Todavia, enquanto isso não acontece, jovens continuam lindando com a gravidez e suas consequências físicas: risco de parto prematuro, abortos espontâneos, psicológicos: depressão, problemas afetivos entre a mãe e a criança e socioeconômicos: abandono da escola, pressão da sociedade, da família e dificuldades de encontrar emprego.
Fica claro, portanto, o efeito negativo da gravidez precoce e a urgência de mudar essa realidade. Assim, é fundamental uma integração social com a educação. Para isso, é necessário investimentos do Ministério da Educação, por meio das secretárias de saúde e educação municipais, com a finalidade de criar um Projeto Político Pedagógico, no qual priorize, além dos estudos das matérias curriculares, a execução de eventos onde alunos, comunidade e profissionais da saúde possam debater e procurar soluções para problemas sociais como a gravidez precoce. Dessa forma, unidos e contornando os obstáculos, conservadorismo, desigualdades sociais, é possível construir uma sociedade mais justa, consciente e participativa.