Gravidez na adolescência em evidência no Brasil
Enviada em 27/05/2018
O drama “Preciosa” narra os conflitos de uma adolescente que, aos 16 anos, está grávida pela segunda vez. Analfabeta e vítima de constantes abusos, a protagonista e suas agruras são parte de um cenário ainda distante de mera ficção. Nessa perspectiva, urge discutir os estigmas e construções morais que fundamentam tal problemática, destacando a desinformação que a concerne.
Em primeiro lugar, convém considerar as bases conservadoras que impedem a formação adequada. Consoante a Pierre de Bourdieu, os indivíduos recebem, por meio do convívio familiar, o capital cultural, mecanismo pelo qual são internalizadas estruturas sociais dominantes. Nesse ínterim, a propagação de tabus no âmbito do lar é determinante para a formação de concepções individuais, em especial entre os mais jovens. Assim, a falta de diálogo aberto sobre sexualidade faz-se grande impeditivo do conhecimento, de modo que são perpetuadas noções vagas e imaturas que, muitas vezes, estimulam a falta de prevenção.
Ademais, é importante destacar as instituições segregadoras que não apoiam adequadamente adolescentes nessas condições. No que concerne às jovens grávidas, impera uma valoração negativa que, oposto ao necessário, as anulam constantemente. A persistência de máculas como a da “mãe solteira” é, nesse sentido, grande reflexo de premissas discriminatórias arraigadas no inconsciente popular, as quais fomentam velado ostracismo. Dessa forma, a inclusão social e a estabilidade se tornam realidades distantes.
Torna-se evidente, portanto, a necessidade de discutir com mais profundidade as questões relacionadas à gravidez juvenil. Faz-se imperioso, então, que governos municipais observem a questão enquanto assunto de saúde pública, no sentido de desenvolver planos concretos de suporte. Para tanto, as secretarias especializadas nesse âmbito, mais aproximadas da realidade local, devem organizar consultas periódicas com ginecologistas em postos comunitários, disponibilizando atendimento e informação útil. Outrossim, facilitar o acesso gratuito a métodos contraceptivos- bem como desconstruir ideias errôneas sobre eles- é medida imperiosa. Dessarte, pelo conhecimento e aproximação com a realidade adolescente, será tangível minimizar a desestrutura hodierna, a fim de que a paternidade não seja um fardo, mas uma escolha advinda da maturidade.