Fome e desigualdade social no século XXI

Enviada em 17/04/2020

O filme espanhol “O Poço” retrata um sistema vertical de alimentação, no qual as pessoas dos níveis superiores se alimentam e os indivíduos nos patamares inferiores passam fome. Fora da ficção, no século XXI, essa organização vertical e os níveis representam, respectivamente, o modelo econômico vigente e as classes sociais, pois o sistema produtivo falho e a desigualdade são os principais responsáveis pela fome no mundo. Desse modo, medidas de combate a essa problemática são necessárias.

De início, cabe elucidar a contribuição do complexo econômico para esse problema. Sob esse ângulo, consoante Josué de Castro, em sua obra “A Geografia da Fome”, esse entrave não é um fenômeno natural, mas um sintoma de estruturas econômicas ineficientes. Em meio a isso, em países subdesenvolvidos, os mais afetados pela subnutrição, o sistema de produção de alimentos predominante é o “plantation”, o qual tem enfoque na exportação em detrimento do abastecimento interno. Em síntese, a saída demasiada de produtos torna a comida dentro do país mais cara.

Em função disso, é expressiva a relação entre a subalimentação e o  abismo social. Nesse sentido, a Revolução Verde - ocorrida no século XX - não atingiu seu objetivo de acabar com a fome, já que, ao passo que essa modernização agrícola aumentou a produtividade, o acesso aos alimentos foi concentrado. Nesse contexto, fica nítido que o encarecimento dos produtos impede a alimentação de indivíduos em vulnerabilidade social, isto é, das classes sociais mais baixas. Dessa forma, a desigualdade social favorece a persistência da fome.

Portanto, observa-se que, para mitigar a subalimentação, é necessário melhorar o sistema produtivo e a distribuição de renda. Por conseguinte, é imperioso que o Ministério da Agricultura atue na reorganização do modo produtivo, por meio do investimento nos negócios de pequenos agricultores - haja vista que eles são os responsáveis pelo abastecimento dos comércios internos de alimentos -, oferecendo mais crédito e tecnologias agrícolas acessíveis, a fim de não só aumentar a produtividade do mercado interno e, consequentemente, diminuir os preços das mercadorias, mas também desenvolver mais empregos no campo e, então, facilitar a distribuição de renda. Assim, o século XXI se afastará do enredo do filme espanhol “O Poço”.