Evasão escolar e a realidade brasileira

Enviada em 28/10/2019

Em meados do século XX, o artista plástico Cândido Portinari retratou, na obra “Os retirantes”, uma família que sai de uma região a outra em busca de condições melhores de vida. Com o objetivo de evidenciar o cotidiano do Brasil, o autor denuncia os problemas sociais do país. Semelhante ao cenário, muitos brasileiros protagonizam, hodiernamente, uma peregrinação em busca de maiores índices de permanência das crianças nas escolas. As demandas para findar a evasão escolar, no entanto, são deturpadas devido à inobservância governamental e a lenta mudança da mentalidade social.

A princípio, é um fator relevante a negligência do Estado frente à atual conjuntura. Nicolau Maquiavel, em “O Príncipe’, afirma que um governante tende a tomar decisões estratégicas que mantenham sua posição de liderança. Tendo isso em vista, é esperado que problemas como a evasão escolar, que possuem pouco apelo eleitoral, ganhem menos investimento do governo, uma vez que existem pautas mais populistas que arrecadam mais votos. Assim, o poder encontrado por autoridades ao se firmarem em suas posições não os motiva a investir em fiscalizações rigorosas e programas de incentivo à permanência na escola. Logo, a manutenção da posição dos gestores no Brasil ocorre às custas de crianças marginalizadas por não terem instrução.

Outrossim, além do descaso do sistema público, há como agravante valores perpetuados na sociedade brasileira. Consoante à Teoria do Habitus, de Pierre Bourdieu, nossas práticas são resultado de condições culturais específicas de um corpo social. Dessarte, o descaso com o sistema educacional, presenciado há décadas no país, ainda ecoa na atualidade e gera um ciclo que deve ser desfeito. Hoje, a saída de muitos estudantes da escola, muitas vezes por influência de responsáveis, ainda possui raízes e afeta negativamente na formação pedagógica e humana do indivíduo. Desse modo, uma mudança nos valores da sociedade é essencial para que a evasão escolar não seja um obstáculo a ser enfrentado ao longo das gerações.

Depreende-se, portanto, que a questão é grave e deve ser findada. Para isso, cabe ao governo criar postos de denúncia específicos para casos de abandono de institutos educacionais, que gere maior movimentação para criação de leis mais abrangentes e fiscalizações mais rigorosas. Ademais, cabe à escola ampliar a visão de mundo dos indivíduos por meio da promoção de palestras para os responsáveis dos estudantes sobre a importância do sistema educacional na vida de crianças e adolescentes. Assim, os pais serão instruídos a reconhecerem os benefícios da educação, a fim de que, através da reflexão do ambiente, possam contribuir para mudanças e melhorias na sociedade. Dessa forma, será possível que as obras de Portinari não transmitam, ainda hoje, o Brasil do século XX.