Evasão escolar e a realidade brasileira
Enviada em 25/07/2019
“Tecendo a manhã”, poema de João Cabral de Melo, retrata uma interpretação diferenciada do amanhecer ao considerá-lo como uma arte realizada pelo cântico em conjunto dos galos. Sob um viés metafórico, pode-se dizer que a instauração de um sistema educacional efetivo possui uma natureza coletiva, assim como é multifatorial a realidade do Brasil quanto à evasão escolar. Dentre os diversos aspectos que corroboram esse quadro, destaca-se a ultrapassada formação dos professores e a baixa resiliência emocional dos jovens.
Sob tal ótica, é imperioso que, apesar da importância de os jovens conhecerem a essência do conteúdo ensinado, a forma como o conhecimento é transmitido determina o rumo acadêmico deles. Na série original Netflix “Merlí”, um professor de filosofia enfrenta embates com os colegas por modificar a forma de dar aulas, tornando-as mais práticas e concretas. De igual forma, há na realidade brasileira mais professores preocupados em ensinar aspectos teóricos e abstratos do que professores dispostos a inovar sua atuação. Esse quadro é preocupante, visto que demonstra a falha na formação docente em lidar com a heterogeneidade das salas de aula. Como consequência, há um ruído na transmissão efetiva do conhecimento e o impedimento de sua flexibilidade, o que afasta os jovens da vida escolar.
Por conseguinte, o desinteresse pelos estudos é diretamente proporcional aos entraves com que um jovem lida. O drama policial “Cidade de Deus”, dirigido por Fernando Meirelles, retrata a realidade de jovens de baixa renda que convivem com a influência próspera do tráfico, da violência e da instabilidade familiar. Esses fatores, associados a uma educação básica ineficaz, geram baixo desempenho e frustração, o que alimenta a substituição da escola seja por um ambiente de trabalho, seja por práticas que aliviem o caos real em que os indivíduos se encontram. Uma vez que as escolas não são vistas como ambientes acolhedores, a vulnerabilidade acresce e as perspectivas de um futuro bem sucedido decaem.
Infere-se, portanto, que a evasão escolar é um problema sistêmico e multifatorial, o que exige a integração ativa de diferentes medidas. Para instigar a atualização e flexibilidade na comunicação dos professores, o Ministério da Educação deve oferecer cursos semestrais aos professores formados. Isso deve ocorrer presencialmente e conter um módulo exclusivo para o desenvolvimento de técnicas de didática e atividades lúdicas para os jovens. Ademais, cabe às Secretarias Estaduais de Educação incrementar políticas públicas que tornem obrigatória a presença de psicólogos - formados ou estagiários - nas escolas, a fim de conceder aos alunos, sobretudo em áreas carentes, o acolhimento necessário para que o Brasil “amanheça” para uma realidade promissora.